Por Cláudia Mendes Silva (*)
Como diretora da Women in Tech Portugal, vejo todos os dias como a tecnologia se torna a espinha dorsal da nossa vida colectiva. Os relatórios da UNESCO ("Gender Report: Technology on her terms", 2024) são claros: as raparigas igualam ou superam os rapazes em matemática e ciências no ensino básico, mas o seu interesse por STEAM cai a pique na adolescência. A União Europeia confirma no She Figures 2024: cerca de um terço das diplomadas em STEM, mas só 20% das especialistas em TIC e, menos ainda, nos lugares de decisão. Este desfasamento não resulta de diferenças inatas, mas de expectativas que restringem escolhas técnicas.
Conheço esse mecanismo de perto. Aos 14 anos, entrei num curso técnico-profissional de informática, única rapariga na turma. O PC que o meu pai, engenheiro, trouxe para casa em 1990 abriu-me esse caminho. Mas ouvi que o meu "talento para ciências" poderia ser desperdício por ali. A diretora chamou-me ao gabinete para me tirar da turma e insistiu, como quem tentava corrigir um erro. Saiu vencida, teimosamente fiquei. A realidade já não é a de 1990, mas os vieses subsistem e subtilmente.
Tudo o que fazemos na Women in Tech Portugal é feito por equipas 100% voluntárias, com um único propósito: corrigir esta pipeline desde a base. Desde 2024, o WIT Kids já envolveu 600 crianças na Maia e mais de 1000 no Porto na Festa da Criança. Programamos pulseiras de missangas com a nossa idade em binário (zeros e uns), ensinamos nanotecnologia com farinha Maizena, cibersegurança com jogos de super-heróis, procuramos vida em Marte entre tantas outras experiências. É apenas um capítulo de uma rede completa: mentoria para mulheres em tech, formação em liderança técnica, eventos de networking, workshops de literacia digital de forma gratuita.
Mostramos onde a tecnologia vive no dia a dia deles, com propósito mas crucial, é quem guia estas mãos: as nossas voluntárias entre engenheiras, cientistas, investigadoras, designers, líderes técnicas; que se dedicam semana após semana pelo propósito. A elas, o nosso obrigado profundo: são o pipeline vivo que forma o talento das vossas futuras equipas.
Vejo isso quando uma rapariga hesitante se aproxima de uma cientista nas actividades e começa a acreditar que cabe ali naquele espaço. Um dia não substitui políticas públicas, mas 1000h de voluntariado em 2025 abriram fendas estruturais.
Hoje, manter apenas 20% de mulheres em TIC significa perder ROI em inovação (equipas diversas patenteiam mais), enfrentar um défice de 800 mil especialistas digitais na UE até 2030 e arriscar produtos enviesados que custam milhões em recalls e litígios.
Metade do talento tech da próxima década tem 8 anos hoje. Cada criança que pega num robô com legitimidade, cada voluntária que a guia, constrói o pipeline de amanhã.
Se metade da população continua fora das vossas mesas técnicas, não estão a inovar e estão a reproduzir e amplificar limitações.
Quem vai desenhar a IA na próxima década? A resposta está nas pulseiras de binário e nos robôs que essas crianças seguram agora.
(*) Diretora da Women in Tech Portugal
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