Por Luisa Ribeiro Lopes (*)

Há dez anos escrevia sobre desigualdade de género no digital. Hoje, volto a escrever o mesmo. E temo que daqui a dez anos esteja novamente a escrever estas mesmas palavras.

No Dia Internacional da Mulher multiplicam-se relatórios, iniciativas, conferências e compromissos. Mas quando olhamos para os dados com frieza, percebemos que a transformação estrutural que tanto proclamamos é demasiado lenta — perigosamente lenta — num setor que, paradoxalmente, vive da aceleração.

Revisitei uma opinião que escrevi para o TEK em 2020, na qual defendia que a inclusão digital e o equilíbrio de género seriam motores da inclusão social e do desenvolvimento económico. A pandemia tinha exposto de forma brutal aquilo que já sabíamos: o digital não é neutro. Amplifica desigualdades quando estas existem. E as mulheres estavam — e continuam a estar — entre as mais penalizadas.

Se é verdade que hoje temos mais mulheres no ensino superior, mais mulheres empreendedoras e mais referências femininas na tecnologia, também é verdade que a sub-representação feminina nas áreas STEM persiste, que os cargos de decisão no setor tecnológico continuam maioritariamente masculinos e que os níveis de literacia digital ainda refletem desigualdades estruturais.

E há um fator que torna esta discussão ainda mais urgente: a disseminação da inteligência artificial.

Os sistemas de IA são treinados com dados que refletem o mundo como ele é — e o mundo é desigual. Se as mulheres estão sub-representadas na produção tecnológica, na definição de algoritmos, na governação digital, essa ausência transforma-se em viés. E o viés transforma-se em decisões automatizadas que perpetuam discriminações no recrutamento, no acesso ao crédito, na saúde, na informação.

Não estamos apenas a falar de justiça social. Estamos a falar de competitividade, de inovação e de democracia.

A Europa colocou a transição digital no centro da sua estratégia económica. Portugal também. Mas não haverá verdadeira transformação digital se metade da população não participar plenamente nela — como utilizadora, como criadora e como decisora.

A desigualdade digital de género manifesta-se em várias camadas: no acesso e nas competências; nas escolhas educativas; na progressão de carreira; na diferença salarial; na representação em cargos de liderança; e na invisibilidade histórica do contributo feminino para a tecnologia.

O problema não é a falta de talento. É a falta de condições estruturais, de modelos de referência, de políticas públicas consistentes e de compromisso organizacional real.

E aqui entra uma questão que tenho vindo a estudar com atenção: o que é que as políticas públicas dizem — e, sobretudo, o que é que deixam por dizer — sobre esta desigualdade. A Década Digital Europeia e a Estratégia Digital Nacional reconhecem formalmente a convergência de género no digital e até fixam metas, como a ambição de termos 30% de mulheres especialistas em TIC. Nos últimos meses, esse enquadramento foi aprofundado por instrumentos como o Plano de Ação da Estratégia Digital Nacional, o Pacto de Competências Digitais, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial e, de forma relevante, o Programa Nacional das Raparigas nas STEM.

Mas quando aplicamos uma lente crítica, percebemos um padrão preocupante: o “problema” tende a ser representado como um défice de participação feminina (um número a corrigir), e não como uma desigualdade estrutural inscrita nos mecanismos de decisão, nas culturas institucionais e na própria governação do digital. Isto tem consequências. Quando a desigualdade é tratada sobretudo como meta quantitativa, corre o risco de ficar confinada a programas setoriais, muitas vezes periféricos, em vez de ser transversalizada nos centros onde se decide a transformação digital.

Isto é particularmente crítico quando falamos de IA: não basta formar mais mulheres para o setor; é preciso garantir quem decide, quem define prioridades, quem avalia riscos, quem estabelece regras e quem tem voz nos modelos de governação. Caso contrário, estaremos a corrigir entradas no sistema, sem mudar o sistema.

Ao longo dos últimos anos assistimos a avanços importantes: programas de capacitação, metas de diversidade, financiamento para empreendedorismo feminino, estratégias nacionais para competências digitais. Mas continuamos a falar de exceções, não de equilíbrio.

E talvez a pergunta que devamos fazer neste 8 de março seja simples: porque é que, num setor que se orgulha de disrupção, a igualdade de género continua a ser tratada como um processo incremental?

A transformação digital só será verdadeiramente transformadora se for inclusiva. Caso contrário, será apenas mais um acelerador de desigualdades.

Precisamos de educação digital inclusiva desde o pré-escolar; de modelos femininos visíveis e reconhecidos; de políticas de retenção e progressão nas empresas tecnológicas; de métricas transparentes sobre diversidade; de financiamento orientado para projetos liderados por mulheres; e de uma governação digital que inclua, desde a origem, diferentes perspetivas.

Mas precisamos também de algo menos tangível: mudança cultural.

Desconstruir estereótipos. Reescrever narrativas. Criar ambientes onde as raparigas não se sintam visitantes num território que lhes pertence tanto quanto a qualquer outro.

E esse é talvez o maior desafio num tempo em que assistimos a retrocessos preocupantes, a ataques a direitos conquistados e a uma democracia que revela fragilidades.

Ainda assim, dez anos depois, continuo a acreditar que a inclusão digital e o equilíbrio de género são motores de desenvolvimento económico e de coesão social. Mas hoje acrescento algo: são também uma condição para a legitimidade da própria transformação tecnológica.

Não podemos aceitar que a economia do futuro seja construída com os desequilíbrios do passado.

Escrever sobre isto todos os anos não deveria ser necessário.

Mas enquanto for, continuarei a fazê-lo.

Porque a igualdade não é uma tendência. É um compromisso.

E é, acima de tudo, um direito humano — num mundo que precisa, mais do que nunca, de garantir que esses direitos não recuam.

(*) Presidente do Conselho Diretivo do .PT