Por José João Mendes (*)

A inteligência artificial (IA) está a marcar uma nova era no ensino superior. Nunca como hoje estudantes e professores tiveram acesso a ferramentas capazes de personalizar a aprendizagem, acelerar a investigação e recriar cenários clínicos com elevado realismo. No ensino da saúde, onde formamos profissionais que irão lidar diretamente com vidas humanas, esta transformação representa uma oportunidade única para aprender melhor, treinar em segurança e integrar a ciência mais recente na prática pedagógica.

As possibilidades são vastas. Simulações clínicas inteligentes permitem que os estudantes vivam experiências complexas, raras ou de alto risco sem comprometer a segurança dos doentes. Sistemas de diagnóstico assistido e de análise de grandes volumes de dados biomédicos reforçam a capacidade de reconhecer padrões e preparam os futuros profissionais para a medicina personalizada, baseada na integração de informação genética, metabólica e ambiental. Assistentes digitais adaptam o ensino ao ritmo de cada aluno, oferecendo feedback imediato e consolidando competências.

Estas tecnologias aproximam o ensino da realidade clínica e ajustam-no às necessidades individuais, promovendo uma aprendizagem mais eficaz e motivadora. A IA pode ser uma aliada decisiva na preparação de profissionais de saúde aptos a responder a um mundo em constante transformação científica e tecnológica.

Contudo, como em qualquer revolução, não basta celebrar a inovação: é essencial utilizá-la com responsabilidade. Estas tecnologias não substituem o raciocínio clínico, a ética nem a empatia. Ensinar saúde não é apenas transmitir protocolos, mas formar profissionais capazes de escutar, comunicar e decidir em contextos de incerteza. Se usada de forma acrítica, a IA pode estimular o plágio, gerar dependência tecnológica ou contribuir para a desumanização da prática clínica - riscos particularmente sérios num domínio que lida com dados sensíveis e com a confiança dos pacientes.

Para existir verdadeiro pensamento crítico, é indispensável uma base científica sólida. Só com este alicerce é possível utilizar a IA de forma consciente, fundamentando decisões clínicas com ciência atualizada e não apenas com respostas automáticas. O maior perigo não está em usar tecnologia, mas em utilizá-la sem esse enquadramento.

A esta dimensão soma-se a questão ética. É urgente garantir que a utilização da inteligência artificial respeita princípios de transparência, justiça e não discriminação. Algoritmos treinados com bases de dados enviesadas podem perpetuar desigualdades sociais ou culturais no acesso a diagnósticos e tratamentos. Nenhuma máquina pode substituir o dever ético de quem cuida de outro ser humano. Como recorda a UNESCO (2023), “a IA deve ser usada como uma ferramenta que amplifica o potencial humano, nunca como substituto da reflexão crítica e da responsabilidade”.

O impacto vai além das salas de aula. Profissionais formados com recurso a estas tecnologias irão lidar com doentes cada vez mais informados. Saber comunicar em linguagem clara, explicar os limites da IA e integrá-la sem perder a confiança do paciente será uma competência tão importante quanto a técnica. A relação médico-paciente ou dentista-paciente pode ser fortalecida ou fragilizada pela forma como estas ferramentas são usadas: como apoio ao raciocínio clínico, reforçam a confiança; como substituto distante, geram desconfiança.

As instituições de ensino superior têm, neste contexto, uma responsabilidade determinante. Devem liderar a sua integração de forma responsável, criando estruturas de governança que envolvam docentes, estudantes e especialistas em ética, ciência de dados e direitos digitais. A OCDE (2024) é clara ao afirmar que “as universidades devem ser laboratórios de uso responsável da IA, com políticas claras, métricas de impacto e salvaguardas éticas que preparem os estudantes para o futuro do trabalho e da cidadania”.

É igualmente essencial apoiar os professores, muitos deles formados em contextos pré-digitais, no desenvolvimento da literacia digital e de estratégias pedagógicas ajustadas a um novo perfil de estudantes. Os métodos de avaliação devem ser repensados, privilegiando processos de raciocínio, debates orais e experiências práticas, onde o uso da IA seja transparente e regulado.

O perfil do futuro profissional de saúde não pode limitar-se ao de utilizador de ferramentas criadas por outros. Deve ser também o de gestor consciente destes sistemas, capaz de interpretar resultados, supervisionar algoritmos e garantir que a qualidade, a segurança e a ética são respeitadas. A inteligência artificial não marca o fim da educação em saúde, mas o início de uma nova era, cujo impacto positivo dependerá da forma como for integrada, com equilíbrio e com a consciência de que, no centro da formação em saúde, está sempre o ser humano. Cabe-nos a nós aproveitá-la com inteligência, ética e visão.

(*)  presidente da Direção da Egas Moniz School of Health & Science, uma instituição de ensino superior com sede e campus na Caparica (Almada) e unidade especializada em Sesimbra.