Por Filipa Pinheiro Baptista (*)

Durante muito tempo, quando se falava em tecnologia na saúde, pensava-se em máquinas sofisticadas, inteligência artificial estilo Terminator e processos complexos que pareciam afastar o ser humano do centro do cuidado. Hoje, essa perceção mudou por completo. A inovação deixou de ser apenas sinónimo de modernização — é agora uma força profundamente humana, que serve para aproximar, incluir e dar resposta a desafios que antes pareciam impossíveis.

Acesso e equidade: cuidar sem fronteiras

Durante décadas, os grandes centros urbanos concentraram o acesso a cuidados especializados, enquanto quem vivia em zonas periféricas tinha de percorrer quilómetros para ser atendido. A telemedicina veio mudar esse paradigma. Uma consulta virtual já não é apenas uma alternativa, é uma nova forma de garantir o direito universal ao cuidado.

Por trás do ecrã há histórias de pessoas que finalmente conseguem falar com o seu médico de família sem depender de terceiros, de doentes crónicos que recebem acompanhamento diário sem sair de casa, e de profissionais que chegam mais longe com o mesmo compromisso humano. A tecnologia, neste contexto, é muito mais do que conveniência, é um instrumento de justiça social e proximidade.

Não só quando falamos das consultas virtuais, mas também com a interoperabilidade, a capacidade dos sistemas de saúde partilharem informação clínica de forma segura e integrada, estaremos a dar um salto gigantesco no que toca ao acesso aos cuidados. Quando o médico tem acesso imediato aos exames, diagnósticos e histórico do paciente, a decisão é mais precisa, o tempo é otimizado e o risco de falhas diminui. Ao mesmo tempo, o próprio utente ganha autonomia, podendo consultar e compreender a sua documentação, o que reforça a confiança e o envolvimento mútuo. Assim, a tecnologia transforma-se num instrumento de equidade e proximidade, que torna o cuidado mais ágil, informado e humano.

Valorização do talento: tecnologia ao serviço de quem cuida

Também para os profissionais de saúde, este é um momento de transformação. A inovação tecnológica trouxe ferramentas que libertam tempo e energia, automatizando tarefas repetitivas para que o foco volte para onde sempre devia estar: o utente.

As plataformas colaborativas e o trabalho em rede permitem que um cirurgião em Portugal troque conhecimento com um colega em qualquer parte do mundo, ou que uma jovem médica aprenda novas técnicas sem sair do seu hospital. Este ambiente digital é um aliado no upskilling das novas gerações e no reskilling dos mais experientes, tornando o sistema mais flexível, colaborativo e preparado para o futuro.

Mais do que formar especialistas, a tecnologia está a formar comunidades de prática, que aprendem e evoluem juntas, partilhando o mesmo propósito - oferecer melhores cuidados, com mais empatia e precisão.

Sustentabilidade: menos desperdício, mais impacto

A digitalização da saúde é também um pilar essencial para a sustentabilidade. Cada consulta virtual, cada documento eletrónico e cada processo automatizado representa um potencial de menos deslocações, menos papel, menos consumo de recursos. É um contributo direto para um sistema mais ágil e ambientalmente responsável.

Mais uma vez, a interoperabilidade faz a diferença. Quando os sistemas estão alinhados, reduz-se a repetição de exames e diagnósticos, evita-se a duplicação de esforços e valorizam-se os dados já disponíveis. Isto não só reduz custos, como diminui o impacto ecológico e aumenta a eficiência global do sistema. A sustentabilidade, neste contexto, é tanto ecológica e financeira quanto humana. Resulta de uma gestão inteligente, colaborativa e com foco no essencial: o bem-estar de quem cuida e de quem é cuidado.

O futuro da saúde é colaborativo

O futuro será feito de pontes, entre pessoas, instituições e tecnologia. Portugal tem todas as condições para liderar esta transformação, alinhando o setor público, privado e social em torno de um objetivo comum: um sistema de saúde mais justo, seguro e transparente, sustentado por literacia digital, ética, cibersegurança e interoperabilidade real.

Quando todos trabalham em conjunto, partilhando dados com confiança e colocando o utente no centro, a tecnologia deixa de ser apenas uma promessa. Torna-se uma prática diária de cuidado. E é aí que reside a verdadeira revolução: uma saúde mais eficiente, sustentável e, acima de tudo, profundamente humana.

(*) responsável pela área de Digital & Automation da Siemens Healthineers