A tempestade Kristin deixou cerca de um milhão de famílias sem eletricidade e mais de 300 mil clientes sem comunicações, nalguns casos por várias semanas. Uma análise da Ookla avalia agora a origem, a gestão e a consequência das falhas e chega a algumas conclusões interessantes.
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Os dados da Speedtest Intelligence mostram que a qualidade e velocidade dos serviços de comunicações móveis foi severamente afetada nos dias seguintes à tempestade e que a situação foi piorando, à medida que o país se viu a braços com outras tempestades.
Segundo esta análise, a velocidade média de download móvel em Portugal caiu até 52,4% em relação ao valor de referência anterior à tempestade, passando de 107,3 Mbps para apenas 51,1 Mbps no seu ponto mais baixo, atingido em 8 de fevereiro.
As velocidades de upload móvel diminuíram até 46,6%, enquanto a latência aumentou 15,6% e o jitter 27,1% durante o período mais crítico, “refletindo um congestionamento significativo da rede e pressão sobre a infraestrutura”, sublinha-se. As infraestruturas danificadas ou inoperacionais fizeram concentrar o tráfego nas células sobreviventes. Note-se que, antes destes eventos, o desempenho da rede móvel portuguesa estava entre os 30 melhores a nível global.
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Na última semana os constrangimentos já estavam parcialmente resolvidos. Os dados mais recentes da análise mostram que, entre 15 e 23 de fevereiro, as velocidades médias de download subiram para 69,8 Mbps - ficando ainda 34,9% abaixo da linha de base.
As velocidades de upload recuperaram para 11,0 Mbps (queda de 29,7%), enquanto a latência moderou para 36 ms (aumento de 8,3%). No entanto, a manutenção de outro indicador em valores elevados, o jitter (9 ms, num aumento de 21,6%), sugere que embora a taxa de transferência bruta tenha melhorado, a estabilidade da rede ainda não estava normalizado. O jitter mede as variações ou instabilidades no tempo de entrega dos pacotes de dados.
Comunicações de satélite em alta
A análise da Ookla mostra ainda que a falha nas redes terrestres aumentou significativamente a procura de serviços baseados em comunicações de satélite. O destaque vai para os serviços da Starlink, que muitos clientes em zonas afetadas ativaram e aos quais os próprios serviços oficiais também recorreram para gerir a crise.
“Nas semanas que antecederam a tempestade Kristin, a atividade da Starlink em Portugal estava relativamente estável. A partir de 28 de janeiro começou a aumentar acentuadamente”.
Na pior fase do impacto das tempestades, entre 28 e 31 de janeiro, a atividade dos utilizadores da Starlink ficou, em média, 49,4% acima dos valores médios anteriores. No dia 31 de janeiro foi atingido um pico de 61,3%. A Ookla acredita que o número reflita tanto a ativação de assinaturas que já existiam como novas subscrições.
Entre 1 e 14 de fevereiro a atividade da Starlink em Portugal mais do que duplicou, ficando 118,4% acima da média habitual antes destes eventos. Esta utilização massiva também teve impacto na qualidade deste serviço.
As velocidades foram diminuindo à medida que o número de utilizadores aumentou: 21,7% para 163,5 Mbps. Ainda assim, mantendo-se cerca de três vezes acima da média disponível nas redes móveis.
O que o estudo também revela é que a atividade da Starlink não foi baixando à medida que as comunicações terrestres foram sendo reestabelecidas. Na semana de 15 a 23 de fevereiro, continuava 151,0% acima da média. “Esse padrão sugere que, para muitos utilizadores, a experiência da tempestade catalisou uma mudança de longo prazo no comportamento de conectividade”, acredita a Ookla.
Grande dependência da rede elétrica e pouca resiliência
Os dados divulgados no primeiro balanço da calamidade atribuíram 40% das falhas de comunicações aos problemas na rede elétrica, informação confirmada pelo chefe da Estrutura da Missão de Reconstrução da Região Centro, Paulo Fernandes.
Uma análise do INESC TEC já tinha chegado às mesmas conclusões, sublinhando que o principal motivo para as falhas de telecomunicações foi a perda de eletricidade nas instalações da rede, as restantes derivaram de avarias nas infraestruturas, tais como rupturas nas fibras óticas. Esses efeitos seriam menores se existissem níveis de resiliência mais elevados, frisa a pesquisa.
Na rede elétrica os danos atingiram 61 torres de alta tensão, que foram derrubadas, e deixaram 774 km de linhas de alta tensão fora de operação, correspondentes a 7% da rede de transmissão de Portugal.
A E-Redes acrescentou aos números da REN que mais de 600 postes de média tensão ficaram danificados. Isto mostra, diz a Ookla, que “os estrangulamentos de resiliência surgem em vários níveis da rede, e não apenas ao nível da distribuição local”.
Portugal, tal como muitos países europeus, não tem requisitos vinculativos para níveis mínimos específicos de energia de reserva em locais móveis. “Uma vulnerabilidade estrutural que pode ser resolvida através de regulamentação”, lembra a Ookla.
“Em eventos climáticos extremos prolongados, a continuidade das telecomunicações é fortemente influenciada pela autonomia energética dos locais, pela logística de restauração e pela redundância da rede de transporte, e não apenas pela capacidade da rede de acesso”, recorda-se.
O Código das Comunicações Eletrónicas (EECC) europeu permite que os Estados-Membros imponham este tipo de disposições, mas não as exige. Na proposta da Comissão para o Digital Networks Act há planos para introduzir novas obrigações a este nível. Estão também em marcha iniciativas dos operadores e um programa local de investimento na resiliência das redes, entre iniciativas em estudo ou em fase inicial de implementação.
Os países do norte da Europa são os mais avançados nesta matéria. Na Noruega, por exemplo, os locais móveis designados, em municípios prioritários, devem ter pelo menos 72 horas de energia de reserva, a principal via de transmissão também deve ter 72 horas e é necessária uma via de transmissão de reserva separada.
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