No coração da Via Láctea existe uma região densa, turbulenta e invisível aos nossos olhos. Aí é possível encontrar o buraco negro supermassivo da nossa Galáxia, envolto por nuvens espessas de gás e poeira. Agora, uma nova imagem revela esse território com um detalhe nunca antes alcançado, mostrando uma rede complexa de filamentos de gás cósmico que atravessam o centro galáctico.

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Os dados foram obtidos com o auxílio do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) e permitem investigar estrelas que vivem no ambiente mais extremo da Via Láctea: a chamada Zona Molecular Central (ZMC). Trata-se da primeira vez que o gás frio é explorado com este nível de detalhe em toda a extensão desta região.

A área agora apresentada estende-se por mais de 650 anos-luz. No céu, o mosaico final, construído a partir da junção de muitas observações individuais, como peças de um puzzle, tem o comprimento equivalente a três Luas Cheias colocadas lado a lado. É também a maior imagem alguma vez obtida pelo ALMA.

Localização da Zona Molecular Central na Via Láctea
Localização da Zona Molecular Central na Via Láctea Localização da Zona Molecular Central na Via Láctea créditos: ESO

O que se revela é uma paisagem densa e intrincada. Estruturas de gás com dezenas de anos-luz cruzam-se com pequenas nuvens que envolvem estrelas individuais. Este é o único núcleo galáctico suficientemente próximo da Terra para poder ser estudado com tanto detalhe, permitindo observar processos que, noutras galáxias, permaneceriam inacessíveis.

O foco das observações é o gás molecular frio, a matéria-prima a partir da qual nascem as estrelas. O rastreio feito pelo ACES (ALMA CMZ Exploration Survey - Rastreio de Exploração da ZMC do ALMA) permitiu detetar dezenas de moléculas diferentes, revelando a química complexa da ZMC. Entre elas estão compostos simples, como o monóxido de silício, e outros mais elaborados, como metanol, acetona ou etanol. Esta diversidade química ajuda os astrónomos a compreender melhor as condições físicas e os processos que moldam o centro galáctico.

Nas regiões mais exteriores da Via Láctea, o processo de formação estelar é relativamente bem conhecido. No entanto, na ZMC, tudo acontece sob condições muito mais extremas. A região alberga algumas das estrelas mais massivas da Galáxia, muitas das quais vivem pouco tempo e terminam as suas vidas em explosões violentas, como supernovas ou mesmo hipernovas.

O vídeo mostra  a química escondida no coração da nossa Galáxia

Com estes novos dados, os cientistas esperam perceber de que forma esses fenómenos influenciam o nascimento de novas estrelas e testar se as teorias atuais de formação estelar se mantêm válidas em ambientes tão intensos.

Estudar como as estrelas nascem na ZMC permite também compreender melhor como as galáxias cresceram e evoluíram. Pensa-se que esta região partilhe características com as galáxias do Universo primitivo, onde a formação estelar ocorria em ambientes igualmente caóticos.

Com a próxima atualização da sensibilidade do ALMA e o futuro Extremely Large Telescope, do ESO, os investigadores esperam observar esta região com ainda mais profundidade. A imagem agora divulgada é detalhada, mas representa apenas o início de uma exploração mais ampla do centro da Via Láctea, salientam.

O vídeo partilhado mostra uma aproximação a esta zona 

Os resultados foram apresentados em cinco artigos científicos que serão publicados na revista da especialidade Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, havendo ainda um sexto praticamente aceite.

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