Por Marco Oliveira (*)

Falar de talento tecnológico em 2026 exige, antes de mais, reconhecer que estamos numa nova fase. Não pior, apenas diferente. Depois de vários anos de contratação acelerada, competição extrema entre empresas e um mercado claramente favorável aos profissionais, entramos agora numa fase de correção. E isso não é um sinal de falência do setor, mas sim de maturidade.

Durante o período mais fervoroso, houve quase sempre novas oportunidades aparentemente melhores à espera. Os profissionais beneficiaram, e bem, de fortes garantias, progressões rápidas e grande poder de negociação. Para muitas empresas, no entanto, tornou-se difícil reter talento, criar equipas estáveis e planear a médio prazo. O mercado estava desequilibrado.

O que vemos hoje é, por outro lado, uma fase de consolidação. Num contexto de maior incerteza económica, menos investimento especulativo e menor foco em crescer a qualquer custo, empresas e trabalhadores ajustaram as expectativas. Os profissionais continuam a valorizar a compensação financeira, mas há menos vagas, mais concorrência entre o talento pelas melhores posições e uma valorização crescente da estabilidade, algo que se sente de forma bastante clara. Em paralelo, a forma como trabalhamos continua a mudar rapidamente.

A inteligência artificial (IA) teve um impacto profundo na produtividade das equipas tecnológicas. Hoje, equipas mais pequenas conseguem fazer muito mais. Tarefas que antes justificavam equipas grandes ou perfis mais juniores passaram a ser executadas de forma rápida e eficiente com recurso a IA. Este fenómeno tem, naturalmente, consequências diretas no mercado.

A entrada de profissionais juniores está a ser redefinida e dificilmente seguirá o mesmo percurso das gerações anteriores. Já não chega repetir caminhos que funcionaram no passado. Demonstrar capacidade de trabalhar com IA, seja como amplificador de produtividade ou como parte central do produto, tornou-se mais relevante do que cumprir as etapas tradicionais. E tal como noutras grandes transformações tecnológicas, esta mudança cria desafios e oportunidades. Muitos profissionais seniores reconhecem o potencial da IA, mas enfrentam limitações naturais de tempo e disponibilidade para acompanhar a velocidade da inovação. Em contrapartida, os profissionais mais jovens têm uma oportunidade única de se posicionar como nativos deste novo modelo, ao invés de tentar apenas replicar trajetos antigos.

É neste contexto que o papel das empresas se torna decisivo. Atrair talento em 2026 passa menos por promessas exageradas e mais por oferecer estabilidade, transparência e investimento real no desenvolvimento das pessoas, num momento em que o trabalho está a sofrer uma transformação. Flexibilidade, benefícios de saúde e bem-estar continuam a ser importantes, mas fatores como confiança, clareza e visão de longo prazo ganham ainda mais peso. Num mercado mais equilibrado, as empresas recuperam algum controlo sobre a forma como constroem as suas equipas, e devem aproveitar esta oportunidade para criar relações de trabalho mais duradouras, com expectativas mais alinhadas e maior compromisso de ambas as partes.

No fim, atrair e reter talento tecnológico em 2026 exige menos euforia e mais liderança consciente. Este novo ciclo de maturidade passa por uma visão de longo prazo, alta exigência e um compromisso real com a estabilidade e o desenvolvimento do talento. Quem compreender esta nova fase estará mais bem preparado para construir equipas fortes num setor que começa, finalmente, a funcionar com mais maturidade.

(*) Chief Innovation Officer da Uphold