Por Hugo Filipe (*)
Durante décadas, falámos de tecnologia quase exclusivamente em termos de eficiência. Mais rápido, mais barato, mais produtivo. A narrativa dominante foi a da aceleração contínua. A Inteligência Artificial começa, finalmente, a contar uma história diferente: a de uma tecnologia que não apenas acelera processos, mas retira peso, peso cognitivo, administrativo e mental.
A expressão “não tenho tempo” tornou-se um refrão moderno, repetido até à exaustão por uma sociedade ocupada com o acessório. Mas talvez o problema nunca tenha sido a falta de tempo. Foi a ocupação excessiva do trivial. Profissionais altamente qualificados passaram anos submersos em tarefas acessórias, relatórios, registos e reconciliações que pouco acrescentam ao valor real do seu trabalho. Num hospital no Japão, onde a implementação de sistemas de IA reduziu em 86% o tempo dedicado a registos clínicos. O tempo libertado não foi convertido em mais produtividade. Foi usado para algo que antes parecia impossível: conversas humanas com pacientes isolados. O tempo é o mesmo. A qualidade é outra.
Nos domínios onde pensar é a principal ferramenta, esta transformação é particularmente evidente. Modelos de IA capazes de resolver teoremas ao nível de matemáticos profissionais não substituem o raciocínio humano. Funcionam como um segundo plano de pensamento - o espelho da Alice que devolve pistas, hipóteses e caminhos alternativos. A criatividade intelectual deixa de ser um exercício solitário e passa a ser um diálogo entre lógicas distintas. A IA surge aqui como um exocórtex: não decide, mas amplia.
Na educação, o potencial é igualmente profundo. Durante demasiado tempo, sistemas desenhados para todos ignoraram cada um, ignoraram a singularidade. Em contextos como o Quénia, onde os rácios aluno/professor são insustentáveis, projetos-piloto com tutores de IA adaptativos mostraram ganhos significativos em matemática em poucos meses. Um ensino ajustado ao ritmo individual, combinado com professores libertos de tarefas administrativas e apoiados por dados em tempo real, revela uma verdade simples: a tecnologia não substitui o educador, restitui-lhe o papel certo.
A ciência vive também uma aceleração estrutural. A descoberta de novos materiais, tradicionalmente limitada por ciclos longos de experimentação, avança agora ao ritmo da simulação inteligente. Baterias sólidas, biomateriais para medicina regenerativa, soluções para captura de carbono ou purificação de água deixam de ser hipóteses distantes. A IA não cria sozinha, mas encurta drasticamente a distância entre pergunta e possibilidade, tornando o processo científico mais exploratório e menos dependente do acaso.
No plano individual, surgem novas oportunidades de expansão pessoal. Aplicações e dispositivos inteligentes captam padrões invisíveis à perceção humana: hábitos, ritmos, respostas emocionais. Não se trata de delegar decisões a algoritmos, mas de ganhar consciência. Um observador silencioso que nos ajuda a ver aquilo que, sozinhos, ignoramos.
O corpo acompanha esta evolução. A convergência entre Inteligência Artificial, robótica e biomecânica redefinem a mobilidade e a recuperação física. Exoesqueletos inteligentes ajustam movimentos, reativam músculos e promovem plasticidade neural, elevando a reabilitação física de graves doenças a outro patamar.
A Inteligência Artificial começa, assim, a revelar a sua função mais relevante: não substituir o humano, mas devolver-lhe aquilo que se perdeu na pressa para chegar a lugar algum. Tempo para escutar com atenção. Espaço mental para pensar com clareza. A primeira revolução tecnológica mecanizou o corpo; esta aproxima-se de libertar a mente. Essa libertação, porém, não é automática. Exige intenção, critério e responsabilidade. A tecnologia pode ampliar horizontes, mas continua a caber ao humano decidir se os utiliza para elevar a forma como trabalha, cria e se relaciona - ou apenas para acelerar modelos que já demonstraram os seus limites.
(*) Partner da Nimble
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