Os níveis de participação feminina no registo de patentes estão acima da média dos países da Organização Europeia de Patentes (OEP) e colocam Portugal na liderança do ranking europeu, ultrapassando a Espanha que estava em número 1 no último estudo. Os números são animadores mas Elvira Fortunato, cientista e ex-ministra da Ciência e Tecnologia, lembra que ainda estamos longe da igualdade de género também nesta área, e que as mulheres continuam a enfrentar barreiras na ciência, no empreendedorismo e na progressão das carreiras.

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Os dados da OEP acabam de ser divulgados e o TEK Notícias teve acesso antecipado ao estudo que também tem dados das startups, onde Portugal se posiciona igualmente acima da média.

Segundo os dados, a percentagem de mulheres que figuram entre os inventores nos pedidos de patente aumentou na Europa apenas de forma marginal nos últimos anos, atingindo 13,8% em 2022, quando em 2019 o valor estava nos 13%. O crescimento também foi pequeno em Portugal, passando de 26,9% em 2013-2017 para 29,3% em 2018-2022.

“Estou contente por ver que estamos em primeiro lugar no ranking europeu […] geralmente estamos na cauda da Europa”, destaca Elvira Fortunato em entrevista ao TEK Notícias. No entanto, a cientista não deixa de notar que a participação feminina ainda não chega aos 30%, longe da paridade de género.

O estudo mostra ainda que, embora as mulheres estejam cada vez mais presentes em equipas de inventores, continuam a ser muito menos designadas como inventoras individuais, e isso “evidencia a persistência de barreiras estruturais”. As dificuldade são semelhantes a outras áreas da economia, com mais dificuldade em liderar equipas ou projetos e fazer a progressão de carreira. “Demoramos mais tempo a chegar lá”, afirma a ex-ministra.

Elvira Fortunato - Cientista e ex ministra da ciência, tecnologia e ensino superior
Elvira Fortunato - Cientista e ex ministra da ciência, tecnologia e ensino superior Elvira Fortunato - - Cientista e ex ministra da ciência, tecnologia e ensino superior @João Lima/NOVA FCT.

Números animadores com destaque para as startups

Cristina Margarido, examinadora de patentes na OEP e uma das responsáveis pelo estudo, explica que embora o número de patentes registadas em Portugal não seja tão alto como noutros países, Portugal se destaca em três pontos na participação feminina, com mais mulheres nomeadas como inventoras de patentes e startups com mulheres fundadoras que registaram patentes.

Neste indicador só Espanha tem melhor resultado que Portugal. “Há uma certa igualdade de startups que têm patentes na sua base ou não têm, e na participação de mulheres nos dois tipos. É um bocado fora do que acontece noutros países, onde uma startup que tenha como base de fundação patentes acaba por ter mais participação masculina do que feminina, e em Portugal isso não é o caso”, esclarece.

Os dados mostram que as startups mais recentes apresentam uma maior proporção de mulheres fundadoras em toda a Europa, que é de 14% nas empresas mais jovens face a cerca de 5.9% nas empresas com mais de 20 anos. Isto sugere que as startups recêm-criadas estão a tornar-se mais diversas mas “as empresas cofundadas por mulheres parecem enfrentar maiores desafios ao nível da sua expansão” e a representação feminina diminui nas rondas de financiamento mais avançadas.

Questionada quando à disparidade existente entre os dados do número de mulheres que seguem carreiras na área da Ciência e Tecnologia (áreas STEM), Cristina Margarido lembra que há sectores onde a disparidade não é tão grande, referindo os exemplos das Ciências da Vida.

Cristina Margarido -  examinadora de patentes na OEP
Cristina Margarido - examinadora de patentes na OEP Cristina Margarido - examinadora de patentes na OEP

O próprio estudo mostra uma variação significativa na participação feminina entre os domínios tecnológicos. A indústria farmacêutica (34,9%), a biotecnologia (34,2%) e a química alimentar (32,3%) apresentam as maiores proporções de mulheres inventoras, enquanto alguns dos domínios de engenharia mais intensivos em patentes registam os níveis mais baixos, entre os quais as áreas de máquinas-ferramenta (5,7%), processos básicos de comunicação (5,5%) e elementos mecânicos (4,9%).

De notar que, apesar do destaque dado às startups com mulheres fundadoras, são as universidades e as organizações públicas de investigação que apresentam, de forma destacada, a maior proporção de mulheres inventoras, com 24,4%, enquanto as pequenas e médias empresas (PME) e os requerentes individuais registam as taxas mais reduzidas de participação feminina.

Uma realidade em evolução lenta

O relatório da OEP salienta uma desigualdade que as mulheres sentem no dia a dia e que continua a afetar a sua progressão de carreira. Elvira Fortunato, cientista e ex-ministra da Ciência e Tecnologia, admite que a mudança está a acontecer, mas é muito lenta.

“Precisamos de mais mulheres nas áreas STEM […] é necessário inverter os números e para isso são precisas políticas públicas que promovam a educação para a ciência e tecnologia logo de pequenas”, afirma.

Lembra que as crianças são esponjas e absorvem mais facilmente, e que não faz sentido continuarmos só a dar bonecas às meninas e máquinas aos rapazes, o que não promove esta ideia de que estas profissões também são para mulheres.

O OEP tem programas para promover a inclusão de raparigas e Elvira Fortunato destacou a importância de trazer mais iniciativas neste sentido. Sublinhou ainda que é importante também reduzir as disparidades regionais, porque muitas iniciativas acabam por ser dirigidas a regiões mais periféricas, deixando de fora os grandes centros, onde estão localizadas mais raparigas. ”É um problema que não é só português, é europeu. Devia haver mais alinhamento nas regiões do país”, defende.

A opção pelas políticas de quotas foi também defendida pela ex-ministra. “Em toda a minha vida sempre defendi a progressão pelo mérito, mas atualmente sou a favor da política de quotas. Só pelo mérito não chegamos lá”, afirma, citando um estudo que diz que ao ritmo atual só daqui a 200 anos teríamos paridade de género.

Para a cientista e ex-governante, as mulheres são duplamente penalizadas quando constituem família e são mães, e por isso enquanto assumiu o cargo de ministra promoveu com a FCT o programa Restart, que incentiva as investigadoras a regressarem depois da licença de maternidade e que compensa o tempo em que estiveram afastadas do trabalho.

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