Por Catarina Peyroteo Salteiro (*)

Não existe um problema de igualdade entre Homem e Mulher. Tudo o que um homem faz, uma mulher pode fazer. A capacidade intelectual é equivalente. A competência não tem género. A ambição também não. E, no entanto, os números continuam a contar outra história.

Se olharmos para os setores mais bem remunerados, como tecnologia, finanças, e grandes cargos executivos, a sub-representação feminina é persistente. São padrões consistentes, e que contribuem para que o World Economic Forum coloque a paridade de género a 123 anos. Ou seja, este é um problema estrutural, amplificado pelo deslumbre de uma teórica meritocracia que serve para tudo: quem é bom sobe, o mérito só por si é suficiente para uma pessoa que é competente conseguir vingar na vida, quem trabalha progride sempre.

No entanto, esta ideia de meritocracia – um conceito tão bom em teoria – ignora os desafios e barreiras estruturais, muitas vezes invisíveis a quem beneficia de sucesso, por nem saber que os mesmos existem. Para que a meritocracia funcionasse tal como é idealizada teríamos todos de partir do mesmo ponto, na mesma igualdade de circunstâncias, o que não se verifica empiricamente.

A realidade é mais complexa.

O chamado glass ceiling tornou-se mais transparente ao longo dos anos, e até subiu mais uns metros. Mas está lá. Já não é uma barreira explícita, mas um conjunto de obstáculos que se manifesta nas oportunidades estratégicas distribuídas dentro de redes informais, na avaliação de liderança que continua a confundir assertividade feminina com excesso e assertividade masculina com competência.

A isto soma-se uma variável frequentemente ignorada: a carga social desproporcional. As mulheres continuam a assumir, em média, mais horas de trabalho não remunerado. A gestão da casa, o acompanhamento da família, a organização invisível do quotidiano. E isto acontece mesmo quando trabalham a tempo inteiro ou quando ocupam cargos exigentes.

Num mercado que valoriza disponibilidade total e linearidade de carreira, quem carrega a maior responsabilidade doméstica parte em desvantagem estrutural. Não por falta de talento, mas por exigências paralelas desiguais e desproporcionais.

Dizer que não há um problema de igualdade é provocador. Porém, é precisamente essa a questão: a igualdade de capacidade existe. O que não existe é igualdade de contexto.

Enquanto não reconhecermos que as regras do jogo foram desenhadas para privilegiar acesso e não o verdadeiro mérito e capacidade, o debate sobre a igualdade continuará redundante, ancorado em clichés e falácias que não nos permitirão avançar para a conversa e consequentes ações que realmente importam: a mudança estrutural da nossa sociedade.

(*) Diretora de comunicação global e Assuntos Públicos na Defined.ai