"Os resultados são desafiantes e estão muito acima da média europeia no uso da IA Generativa para o estudo e aconselhamento emocional, o que é preocupante", revelou Cristina Ponte em entrevista ao TEK Notícias.  Os dados fazem parte do relatório "Crianças e jovens (9-17) e Inteligência Artificial Generativa em Portugal" que é hoje divulgado, no âmbito do Dia da Internet mais Segura, e tem por base os estudos EU Kids Online em Portugal.

A análise das investigadoras da Universidade Nova mostra que as crianças e jovens portugueses fazem um uso intensivo das ferramentas para os trabalhos escolares, confiando nos resultados, mas também para aconselhamento e desabafo que acreditam ser mais privados, o que traz preocupações acrescidas para o desempenho escolar mas também em equilíbrio emocional. Na escola há um "jogo arriscado" com os professores enquanto o uso da IA generativa para apoio e aconselhamento mostra sinais de uma afastamento e falta de alternativas.

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De acordo com os números, a presença das ferramentas de IA Generativa nos quotidianos de crianças e jovens é indicada como uma realidade para uma esmagadora maioria das crianças e jovens portugueses, com uma percentagem de 85%, que está 10% acima da média no inquérito europeu. O uso aumenta com a idade, mas 78% dos inquiridos entre os 9 e os 11 anos já reportam a utilização das ferramentas de IA Generativa.

Cristina Ponte, uma das investigadoras responsáveis pelo estudo, diz que "na comparação com a média europeia, as crianças e jovens portugueses destacam-se com a maior utilização das ferramentas, em diversidade e intensidade, e com a maior referência a usos destas ferramentas para apoio ao trabalho escolar".

A facilidade e a rapidez na utilização são as principais características atribuídas pelos jovens a estas ferramentas, a que se associa a sua linguagem designada como neutra e objetiva, desprovida de sentimentos. A IA Generativa é usada para resumir ou explicar textos longos, mas também para ajudar a fazer trabalhos de várias disciplinas.

O estudo refere que "a preferência por usar a IA Generativa relativamente a outros recursos digitais colaborativos, como a Wikipedia, aponta para o poder persuasivo destes sistemas opacos, velozes e altamente personalizados, com convincentes respostas imediatas e (aparentemente) ´à medida' ".

Cristina Ponte admite a sua preocupação com a perda de sentido crítico e riscos na capacidade de aprendizagem mais estruturada. "Estes dados desafiam a forma como a escola pode funcionar com estas ferramentas", defende, explicando que está a ser preparado também um relatório sobre a componente escolar que pode trazer mais dados nesta área.

A diferença de oportunidades é também apontada pela investigadora, que indica que as diferenças de género mas sobretudo socioeconómicas apontam para a permanência de uma divisão digital, em linha com resultados europeus do EU Kids.

Um quarto dos jovens usam as ferramentas para aconselhamento emocional

Não é só na utilização para os trabalhos escolares que as crianças e jovens portugueses se destacam neste estudo. Também o recurso às ferramentas para aconselhamento emocional está acima da média europeia.

O estudo refere que um quarto dos jovens inquiridos usam estas ferramentas para apoio emocional e pessoal, dez pontos acima da média europeia (15%).

Cristina Ponte admite a sua preocupação com estes números. "É uma percentagem elevada", afirma, dizendo que "pode traduzir um estado de inquietação" e ausência de alternativas para apoio emocional. 

"Se o dispositivo comunicacional destas ferramentas favorece a ilusão de proximidade e a compensação imediata, o (aparente) bem-estar é acompanhado de sentimentos de insegurança, de culpa e de perda de controlo na gestão de tempos", refere também o estudo.

Ainda assim, as entrevistas qualitativas revelam que os jovens têm consciência dos riscos, e preocupações com a dependência e manipulação das plataformas. "Vemos que os adolescentes de 15 e 16 anos já revelam grande maturidade relativamente à tecnologia", afirma a investigadora, afastando a ideia de que são irresponsáveis e inconscientes que muitas vezes é transmitida.

Mais literacia para a Inteligência Artificial e desenvolvimento de pensamento crítico

O estudo deixa algumas recomendações para a área da educação, conhecimento e políticas públicas, baseadas nos resultados mas também nas entrevistas com os jovens e a forma como estes encaram a utilização da tecnologia.

O envolvimento das crianças e jovens na definição de critérios de avaliação de trabalhos escolares realizados com intervenção das ferramentas de IA Generativa é uma das recomendações apontadas, sobretudo quando se verifica a utilização intensiva num "jogo arriscado" com os professores.

O estudo recomenda ainda que o desenvolvimento das competências para utilização das ferramentas ultrapasse as disciplinas de Educação Tecnológica e Educação para a Cidadania e seja transversal a outras matérias, indicando que constituem oportunidades de desenvolver o pensamento crítico.

"Uma literacia para inteligência artificial generativa, precoce e adequada à idade, deve ser uma prioridade", refere ainda o documento.

Para as investigadoras, importa ainda importa assegurar uma abordagem educativa sistemática e estruturada, que proporcione consistência entre escolas, de forma a evitar a divisão digital identificada na diferença de acesso entre as crianças e jovens de diferentes meios socioeconómicos.

De notar ainda que os próprios adolescentes inquiridos no estudo revelam sensibilidade quanto aos desafios da dependência e da intervenção ativa por parte das plataformas em relação à proteção e garantia de melhores recursos e segurança.

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