Por Rita Quaresma (*)

A Inteligência Artificial (IA) já está a transformar silenciosamente o setor financeiro, mas há uma mudança estrutural que merece relevo: a forma como as dívidas serão analisadas, geridas e, sobretudo, antecipadas.

O impacto vai ser mais profundo no caso específico do crédito consolidado. Tradicionalmente, esta é uma solução reativa: as pessoas procuram juntar (consolidar) empréstimos quando estão sob pressão financeira. Agora, a IA poderá inverter essa lógica.

Em concreto, as instituições financeiras vão conseguir identificar padrões de risco meses antes de surgir uma situação de sufoco orçamental e sinalizar os consumidores nesse sentido.

Vejamos: hoje em dia, os modelos clássicos de “scoring” de créditos funcionam de forma rígida e binária. Um financiamento ou é aprovado ou é recusado. Mas a IA introduz uma nuance: pode analisar tendências, contextos e criar cenários preditivos da evolução do perfil financeiro de cada pessoa. Dessa forma, não se olha apenas para uma “fotografia estática” do passado.

No crédito consolidado, esta qualidade traduz-se em decisões mais ajustadas à realidade do consumidor. Um histórico bancário negativo, por exemplo, poderá deixar de ser uma sentença definitiva se existirem indicadores claros de recuperação futura. Do mesmo modo, perfis aparentemente estáveis podem ser sinalizados como risco a médio ou a longo prazo.

Assim, as decisões deixam de ser tão “cegas” e acríticas; e passam a ser mais informadas.

A IA vai também permitir criar propostas de crédito consolidado verdadeiramente personalizadas. Não apenas no custo total ou na taxa de juro, mas na estrutura completa do produto: prazos dinâmicos, períodos de carência ajustados, prestações flexíveis e até recomendações de comportamento financeiro após a consolidação.

O crédito vai, enfim, deixar de ser um produto fechado e passa a ser um serviço em evolução contínua, acompanhado por dados em tempo real.

Esta transformação não vai acontecer isoladamente. Os sistemas de IA podem ligar-se a apps de gestão financeira e plataformas de Open Banking, por exemplo. Ora, o consumidor passa a ter dashboards de dívida, alertas inteligentes e simulações em tempo real.

Como é claro, é preciso considerar que a tecnologia pode também amplificar problemas. Modelos mal treinados podem perpetuar enviesamentos e dificultar a compreensão das decisões. E se a IA passar de facto a definir quem pode consolidar créditos, quando e em que condições, a transparência é ainda mais crítica.

O critério humano não deve, por isso, ser substituído. Na verdade, o modelo mais robusto será híbrido: tecnologia para analisar, prever e propor; pessoas para validar, contextualizar e intervir quando os dados não contam uma “história completa”.

O crédito consolidado do futuro será mais rápido, mais inteligente e mais integrado. O importante é garantir que será também mais justo.

(*) COO da Gestlifes e Responsável pelo CréditoConsolidado.pt