Por Simone Larsson (*)

Os próximos doze meses trarão uma convergência significativa de três forças: restrições energéticas, fragmentação regulatória e a rápida industrialização da IA. Em conjunto, estas forças irão moldar a forma como as empresas planeiam, implementam e extraem valor da IA em escala. Eis cinco formas essenciais através das quais podemos esperar que este impacto se faça sentir.

  1. Cada watt conta: a energia torna-se o primeiro princípio de design

Em 2026, a energia irá ultrapassar o poder de computação como a principal restrição de design das infraestruturas de IA em toda a EMEA. Os sistemas elétricos europeus continuam sob forte pressão, com a Agência Internacional de Energia a projetar crescimento contínuo da procura de eletricidade e volatilidade persistente dos preços até 2026. Ao mesmo tempo, as organizações enfrentam metas ambiciosas de sustentabilidade definidas antes da pandemia, levando os CIOs a tratarem a energia não como um custo operacional, mas como uma limitação estratégica. Cada watt passa a contar.

Esta mudança irá redirecionar profundamente a estratégia de infraestruturas. O planeamento de centros de dados começará pela disponibilidade, eficiência e localização da energia e não pela densidade de servidores. O design orientado para a eficiência energética, que integra sistemas de baixa pegada de carbono, arrefecimento avançado e colocação inteligente das cargas de trabalho, irá ser essencial, sobretudo em mercados secundários e localizações edge com capacidade limitada da rede elétrica.

Regiões com perfis energéticos favoráveis, como os países nórdicos com elevada disponibilidade de energias renováveis, continuarão a atrair investimento em IA, enquanto o Sul e o Leste da Europa aceleram a inovação em centros de dados partilhados e no desenvolvimento de micro-redes. No Médio Oriente e em África, modelos híbridos e de geração local passarão de experimentais a mainstream, à medida que as empresas procuram estabilizar e escalar operações de IA.

À medida que a procura por computação cresce mais rapidamente do que a capacidade dos serviços públicos para expandir a oferta, o acesso à energia torna-se o novo fator diferenciador competitivo. As instalações de centros de dados partilhados assumirão um papel central na implementação de IA, graças à proximidade a clusters de energias renováveis, suporte para bastidores de alta densidade e interligações escaláveis. As decisões ao longo de toda a infraestrutura, hardware, arrefecimento, arquitetura de rede e colocação de workloads passarão a girar em torno da disponibilidade energética, eficiência e conformidade regulatória.

Em 2026, os líderes em IA na EMEA serão aqueles que projetarem desde o início para a adaptabilidade energética, conquistando velocidade, resiliência e confiança regulatória num mundo cada vez mais limitado pela energia.

  1. A inferência assume o centro do palco à medida que a IA se aproxima dos dados

Até 2026, o panorama da IA na EMEA irá sofrer uma mudança fundamental: o centro de gravidade passará do treino de modelos massivos para a execução e otimização à escala através da inferência. À medida que as organizações integram a IA mais profundamente nas suas operações, um forte efeito de gravidade dos dados irá aproximar a capacidade de computação do local onde os dados são gerados, regulados e consumidos.

Na EMEA, esta tendência é amplificada pela combinação única de requisitos rigorosos de soberania dos dados, fragmentação regulatória transfronteiriça e mercados altamente distribuídos. As empresas irão repensar a colocação das infraestruturas, afastando-se de ambientes centralizados de treino e avançando para implementações no edge e em centros de dados próximos da origem dos dados, mantendo informações sensíveis dentro de fronteiras nacionais ou regionais.

A inferência será a carga de trabalho dominante, impulsionando a procura por infraestruturas distribuídas, eficientes e conscientes da conformidade, capazes de fornecer insights em tempo real. Em setores como indústria, retalho, serviços financeiros e administração pública, fortemente dependentes de dados locais, esta mudança permitirá decisões mais rápidas, maior capacidade de resposta e maior resiliência operacional.

Em 2026, a vantagem competitiva da EMEA não virá de construir os maiores modelos, mas de implementar inteligência exatamente onde cria mais valor: no edge, junto aos dados e profundamente integrada nas operações do dia a dia.

  1. Regulação e soberania redesenham o mapa da IA

Se a energia se torna a restrição física, a regulação emerge como a restrição digital.

O Regulamento Europeu da IA (EU AI Act) estará completamente implementado em 2026, estabelecendo o primeiro enquadramento abrangente do mundo para uma IA de confiança. Em conjunto com requisitos existentes de soberania dos dados, como o RGPD, isto criará um mosaico de zonas de conformidade em toda a EMEA, onde o que é permitido numa jurisdição pode ser restringido noutra.

A estratégia de infraestruturas passará, assim, a ser também uma estratégia de conformidade. As organizações terão de decidir onde os modelos são treinados, onde os dados residem e como as cargas de inferência são implementadas. O crescimento de arquiteturas de cloud local e edge reflete esta mudança, permitindo manter dados e computação dentro de fronteiras nacionais ou regionais, sem abdicar dos benefícios da IA.

Neste contexto, a transparência torna-se moeda. As empresas capazes de explicar claramente a origem dos modelos, a proveniência dos dados e a lógica das decisões estarão muito bem posicionadas para conquistar a confiança de clientes e reguladores. Estruturas de IA responsável, antes consideradas opcionais, passam a ser tão fundamentais quanto as políticas de cibersegurança.

  1. A IA passa da experimentação à execução na EMEA

As organizações da região estão a ultrapassar a fadiga dos projetos-piloto, à medida que pressões macroeconómicas, da volatilidade económica ao aperto dos prazos regulatórios, exigem tecnologia com impacto mensurável e não apenas potencial teórico. Com a escassez de talento a intensificar-se e a eficiência operacional no topo das agendas executivas, a IA que apenas testa ideias deixa de ser suficiente.

Simultaneamente, a competição entre as economias digitais maduras da Europa e os centros de inovação em rápido crescimento no Médio Oriente e em África eleva a fasquia do impacto esperado. Os CIOs serão cada vez mais avaliados não pelo número de pilotos lançados, mas pelo valor de negócio gerado pelos modelos de IA em produção na experiência do cliente, desempenho da cadeia de abastecimento, capacidade de resposta dos serviços e crescimento das receitas. À medida que os primeiros adotantes demonstram ROI claro, o reinvestimento acelerará, criando um efeito multiplicador transversal aos setores.

Num contexto de requisitos regulatórios complexos, necessidades de mercado diversas e expectativas crescentes em torno da tecnologia responsável, as empresas irão priorizar IA que possa ser operacionalizada rapidamente, totalmente confiável e governada de forma consistente. Mesmo perante preocupações crescentes com disponibilidade energética, custos e eficiência da infraestrutura, o principal motor será a necessidade de sistemas de IA que funcionem à escala e se integrem de forma fluida nas operações diárias.

Em 2026, a IA torna-se um verdadeiro motor de negócio na EMEA, reforçando a resiliência, aumentando a produtividade e elevando a competitividade das organizações prontas para passar da ambição à ação.

  1. A IA agente redefine os negócios

As organizações da EMEA irão transitar da automatização tradicional para a era da IA agente que são sistemas inteligentes capazes de tomar ações autónomas para personalizar experiências, otimizar operações e aumentar as capacidades dos colaboradores em todos os setores. No retalho, isto traduz-se em maior envolvimento do cliente e serviços mais adaptativos. Na indústria, sistemas assentes em agentes irão otimizar fluxos de produção, antecipar disrupções e reduzir tempos de inatividade. Nos serviços financeiros, apoiarão consultores com insights em tempo real e reforçarão a deteção de fraude. No setor público, permitirão serviços mais rápidos e centrados no cidadão, à escala.

O retorno dos investimentos anteriores em IA, desde visão computacional para prevenção de perdas até manutenção preditiva e automatização de fluxos de trabalho, irá ser capital de reinvestimento para esta nova fase de transformação. Num contexto de necessidades diversas dos clientes e ambientes regulatórios complexos, a IA agente tornar-se-á uma vantagem estratégica, permitindo operar com maior capacidade de resposta, eficiência e empatia.

Em 2026, a IA agente não substituirá o elemento humano, irá elevá-lo, melhorando cada interação onde pessoas e processos se encontram.

Construir o futuro de forma responsável

No final de 2026, a IA será uma capacidade central de negócio em toda a EMEA, implementada, governada e operacionalizada com um nível de maturidade sem precedentes. As organizações que prosperarem serão aquelas que desenharem intencionalmente o equilíbrio: entre desempenho e restrição, inovação e supervisão, automatização e responsabilidade humana.

À medida que energia, políticas e pessoas convergem, a verdadeira questão deixa de ser se a IA irá transformar a empresa, para passar a ser se as empresas construíram as bases físicas, éticas e operacionais necessárias para sustentar essa transformação.

O sucesso pertencerá a quem tratar a IA responsável não como um exercício de conformidade, mas como uma vantagem estratégica. Em 2026, as empresas mais inteligentes não se limitarão a adotar IA, irão compreendê-la profundamente, governá-la com transparência e alimentá-la de forma responsável, garantindo que a inteligência se torna um motor duradouro de confiança, resiliência e crescimento.

(*) Simone Larsson Head of Enterprise AI EMEA, Lenovo ISG