Por Rebecca Hahn (*)

A internet é hoje um palco aberto onde qualquer pessoa pode comunicar para milhões por todo o mundo. As redes sociais democratizaram a comunicação e é inegável que esse progresso merece ser celebrado. Mas, entretanto, surgem novos desafios: não são apenas as pessoas que podem comunicar livremente, os bots também.

Há poucos anos, a dúvida seria absurda. Hoje, é justificável, perante um comentário ou publicação na rede social, levantar-se a pergunta “isto é uma pessoa ou um bot?”. Não porque o que é lido é estranho, mas talvez até por ser demasiado bem escrito. A desconfiança já não nasce do erro, mas da fluidez.

Esta desconfiança diz muito sobre o estado do ambiente digital e a experiência geral dos consumidores. Não estamos perante uma invasão agressiva de máquinas. Estamos perante algo mais desconfortável: a perda da capacidade de reconhecer presença humana.

O desafio não é que existam sistemas a escrever, responder ou interagir. O desafio é que o espaço onde isso acontece nunca foi redesenhado para essa coexistência. Continuamos a usar plataformas pensadas para pessoas, como se ainda só houvesse pessoas nelas.

E isso tem consequências práticas. Quando não sabemos quem está a falar, deixamos de escutar da mesma forma. Passamos a ler com cinismo, a responder com menos cuidado, a desconfiar por defeito. A dúvida instala-se antes do diálogo. A internet não se torna hostil; torna-se indiferente.

Em Portugal, isto começa a sentir-se em lugares muito concretos. Em comentários de jornais, em fóruns profissionais, em processos digitais onde a participação humana devia ser central. A questão já não é “concordo ou discordo”, mas “vale a pena responder?”. Sem essa resposta, o espaço público encolhe.

É neste ponto que a ideia de prova de humanidade deixa de ser técnica e passa a ser quase social. Não como uma verificação intrusiva, nem como um carimbo de identidade, mas como um sinal mínimo de presença. Um equivalente digital ao olhar que confirma que estamos a falar com alguém, não com um eco.

Curiosamente, nunca exigimos prova de humanidade no mundo físico. Exigimos contexto. Gestos. Hesitações. Silêncios. No mundo digital, tentámos eliminar contexto em nome da eficiência. E agora estranhamos o vazio que ficou.

Num futuro próximo, vamos continuar a ler textos impecáveis, respostas instantâneas, argumentos irrefutáveis. Alguns serão humanos. Outros não. A questão não é impedir uns ou outros. É saber quando estamos, de facto, a falar entre nós. Quando deixamos de conseguir reconhecer pessoas no espaço público, mesmo que digital, não perdemos apenas confiança. Perdemos a vontade de participar.

(*) Chief Communications Officer na Tools for Humanity