Por Miguel Oliveira (*)

Durante mais de um século, a escola preparou os alunos para dominar competências cognitivas que eram bens raros: memorizar, reter informação, organizar conteúdos e produzir respostas rápidas. Este modelo fazia sentido num mundo em que a inteligência humana era o único motor de processamento avançado, algo escasso e muito valioso. Mas, ao ritmo acelerado a que assistimos ao aumento da inteligência artificial (IA), torna-se previsível que, dentro da próxima década, estas competências deixem de ter valor distintivo e passem a ser desempenhadas de forma incomparavelmente superior por sistemas de IA.

E aqui surge o ponto crítico: se esta trajetória (marcada por um aumento exponencial da inteligência dos modelos de IA e por uma redução igualmente acelerada do seu custo, tornando esta capacidade cognitiva ubíqua) se mantiver, é altamente plausível que, num horizonte de poucos anos, a intervenção humana em muitas tarefas intelectuais deixe de acrescentar valor e possa até reduzi-lo. Isto significa que adicionar um humano a tarefas que a IA executa com precisão instantânea não melhorará o resultado; tenderá a piorá-lo. Este é o risco mais profundo de continuarmos a sustentar um modelo educativo assente em competências que estão prestes a deixar de ser competitivas.

Um exemplo claro e intuitivo: Pensemos na tradução técnica especializada. Durante décadas, este trabalho exigia anos de formação. Contudo, se o ritmo atual de evolução dos modelos continuar, dentro da próxima década a IA fará traduções jurídicas, médicas ou científicas com níveis de precisão, consistência e rapidez totalmente inalcançáveis para humanos. Nesse cenário, quando uma pessoa tentar “melhorar” uma tradução produzida pela IA, é muito provável que introduza erros, hesitações ou enviesamentos. A intervenção humana deixa de ser um contributo positivo e passa a acrescentar ruído, reduzindo a qualidade final.

Este é o significado concreto de valor negativo: o humano não só não melhora, estraga. A literatura empírica começa já a mostrar que, à medida que a IA aumenta de capacidade e reduz de custo, a intervenção humana em certas tarefas intelectuais não garante melhoria – e pode tornar-se o principal fator de degradação. Este é o fundamento científico que torna urgente repensar o que a escola deve ensinar.

A analogia ajuda a perceber o absurdo de mantermos o paradigma educativo atual. Seria impensável criar um sistema desportivo cujo objetivo fosse treinar humanos para correr mais rápido do que carros. Não interessa o talento, a dedicação ou a disciplina: o corredor nunca vencerá o motor. Da mesma forma que já ninguém deseja entregas de comida feitas a pé quando existem veículos motorizados, tornar-se-á igualmente ilógico treinar jovens para competir em velocidade cognitiva, retenção de informação ou produção de respostas num mundo onde a IA as irá superar exponencialmente.

Se a escola continuar a otimizar para estas competências, arrisca-se a formar pessoas para tarefas que estarão obsoletas antes de terminarem o seu percurso académico.

É aqui que entram as novas competências críticas. Num cenário em que a informação e a inteligência se tornarão instantâneas e abundantes, o valor humano passará pela capacidade de tomar decisões em contextos ambíguos, de consensualizar valores e prioridades, de exercer pensamento crítico aplicado e de manter uma sensibilidade ética e relacional que a tecnologia não consegue replicar.

A comunicação deliberada, capaz de integrar intenções, nuances e consequências, será igualmente central. E, talvez acima de todas, surgirá a arte de formular boas perguntas, porque num mundo onde todas as respostas estão disponíveis, o verdadeiro diferenciador será saber orientar, interpretar e governar a inteligência que produz essas respostas. A escola não deve formar “máquinas humanas” que tentam competir com a IA.

Deve formar diretores de inteligência, capazes de orientar, supervisionar e colocar a tecnologia ao serviço do humano. Caso contrário, continuaremos a treinar jovens para correr… num mundo que já anda de motor. E, para que esta transformação aconteça, teremos inevitavelmente de mudar os incentivos do próprio sistema educativo – um tema que desenvolverei no próximo artigo.

(*) Coordenador do Programa PsicologIA na Transformação Social da Ordem dos Psicólogos Portugueses