Por Margarida Fonseca (*)
Estava no escritório a assistir a uma conferência, ao vivo de Berlim, quando um orador começou a falar de filmes. Astronautas, cientistas, chefs de cozinha e exemplos como Netflix e Blockbuster ganharam, de repente, uma nova vida como metáforas claras sobre o que falta em muitas equipas digitais de produto.
Não é talento. Não é tecnologia.
É a capacidade de pensar o futuro, sobretudo, de integrar esse pensamento no trabalho do dia a dia. Porque se continuarmos presos apenas ao próximo sprint, corremos o risco de perder oportunidades que ainda nem conseguimos nomear.
Quando o backlog manda no produto
Muitos de nós passamos semanas inteiras com as equipas, com a cabeça enfiada no backlog, a executar: “burning down the backlog”. Quem nunca?
Não me entendam mal. Cumprir prazos é essencial, as prioridades são claras: planeamento estruturado, datas definidas, accountability ao longo de todo o projeto. Mas há uma distinção importante que nem sempre fazemos: gerir tarefas não é ter visão.
Porque é que a visão de produto importa no dia a dia
Muitas equipas de produto funcionam bem no dia a dia, com rituais e entregas consistentes. Ainda assim, falta muitas vezes uma resposta clara sobre para onde o produto quer ir.
Ocupadas com ciclos curtos e urgências, acabam por tratar a visão como algo distante. O contraste entre Netflix e Blockbuster mostra que o diferencial não foi tecnológico. A Netflix reformulou o que podia ser a experiência de ver filmes.
Três práticas simples para trazer visão para o dia a dia
A boa notícia é que trabalhar visão não precisa de ser um exercício solene, reservado a grandes momentos. Pode caber em sessões de uma hora, dentro do ritmo normal da equipa.
Algumas práticas que tenho visto funcionar:
- User Time Travel
Durante uma reunião, a equipa imagina o utilizador daqui a cinco anos. Como mudou a vida dessa pessoa. Que papel têm a inteligência artificial, a privacidade, a automatização. Que expectativas passa a ter em relação ao produto. Este exercício ajuda a desafiar certezas atuais e a perceber se estamos a desenhar para um mundo que já está a mudar.
- Speculative Sprint 60
Um mini sprint de visão com duração total de uma hora: identificar frustrações de hoje, imaginar futuros desejáveis, esboçar conceitos rápidos e partilhar com o grupo. O objetivo não é sair com um plano fechado, é criar uma primeira imagem de futuro que a equipa reconhece como desejável e possível.
- What if…? Storm
A equipa cria perguntas começadas por “E se…?”. E se o utilizador não tivesse de abrir a aplicação. E se o onboarding desaparecesse. E se a maior parte do esforço manual fosse automatizado. Estas perguntas abrem espaço para alternativas que, em contexto de backlog, dificilmente aparecem.
Nenhuma destas práticas exige ferramentas complexas. Papel, caneta e um momento protegido na agenda podem ser suficientes para dar início a uma conversa diferente sobre o futuro do produto.
Visão como storytelling (e como negócio)
A visão funciona melhor quando é contada como história e não como funcionalidades. Tal como um concept car, aponta uma direção mais do que um produto final. Em produto digital, pode ser um protótipo ou storyboard simples, desde que torne o futuro visível e relevante também para o negócio: que risco ajuda a reduzir, que oportunidades abre, que relevância acrescenta ao mercado. É nesta ponte entre imaginação e pragmatismo que a visão deixa de ser abstrata e começa a ganhar apoio real.
Um convite simples
O primeiro passo pode ser modesto e ainda assim transformador: reservar uma hora por mês para um exercício de visão com a equipa de produto. Escolher um tema concreto e perguntar que história gostaríamos de estar a contar sobre ele dentro de alguns anos.
Do lado da gestão, o gesto mais poderoso pode ser legitimar este espaço: reconhecer que discutir futuro é trabalho, não perda de tempo.
Do lado das equipas, o convite é levantar a cabeça do backlog e fazer perguntas de futuro. Quem está mais próximo dos clientes e dos dados tem um papel essencial na construção desta visão.
A Avestruz e o Polvo
Num areal, junto ao mar viviam uma avestruz e um polvo que, juntos, construíam algo importante.
A Avestruz era rápida e incansável. Com uma lista presa ao bico, corria, riscando tarefas com satisfação.
“Backlog em dia!” dizia, enquanto enterrava a cabeça na areia para se concentrar no próximo item.
O Polvo estendia os tentáculos, sentia as correntes e observava o horizonte.
“Para onde vamos afinal?” perguntava.
“Agora não”, respondia a Avestruz. Temos muito para entregar.
Até que o mar começou a mudar e os caminhos antigos ficaram submersos.
“Não precisamos de parar de trabalhar”, disse o polvo calmamente. Só precisamos de levantar a cabeça de vez em quando.
Juntos, desenharam na areia uma ideia imperfeita do futuro. Não era um plano fechado, nem uma promessa. Era apenas uma direção.
A avestruz continuou a correr, mas, agora sabia para onde.
E o polvo continuou a imaginar, mas, agora as ideias ganhavam forma no dia a dia.
Moral da história:
Cumprir tarefas mantém-nos ocupados.
Imaginar o futuro dá sentido ao caminho.
Um produto precisa dos pés firmes no presente… e dos olhos postos no que ainda não existe.
(*) Head of UX Projects da Hyphen
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