Em janeiro, o patrão da Nvidia, Jensen Huang, voltou a reforçar que estamos a entrar numa nova era de inteligência artificial, a IA física, ou seja, um salto dos chatbots conversacionais e modelos de linguagem para robots humanoides, com capacidades avançadas, replicando os movimentos e trabalhos feitos por humanos. Um artigo publicado no MIT Technology Review revela o trabalho invisível que os humanos fazem para “dar vida” a esses robots e que está a ser escondido.
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As empresas continuam a “vender” a ideia de que a IA deixará de ser apenas software, passando a atuar no mundo físico através destes robots, oferecendo demonstrações de máquinas altamente autónomas e adaptáveis às diversas situações e cenários. No entanto, esses robots requerem grandes quantidades de dados para aprender as tarefas. E que dados são esses? Segundo a publicação, são dados captados de pessoas a executar repetitivamente esses movimentos simples durante horas.
O estudo aponta que os trabalhadores humanos utilizam sistemas de realidade virtual, assim como exoesqueletos para executar tarefas como abrir e fechar portas de micro-ondas centenas de vezes por dia, durante uma semana. As fabricantes dos robots captam esses dados, muitos deles executados em casas e cenários reais, para depois treinar os modelos humanoides.
Esse trabalho, considerado invisível para o objetivo final, está a levantar questões éticas, mas também laborais, apontando a falta de transparência sobre o trabalho humano envolvido no processo de treino e operação dos robots.
Isso faz com que o público tenha uma má compreensão sobre aquilo que as máquinas conseguem realmente fazer. Além disso, o estudo sugere que esta situação cria riscos de privacidade, transformando as tarefas domésticas em trabalho remoto mal remunerado.
É dado o exemplo de como a Figure, uma das empresas que mais demonstrações tem feito com os seus robots, planeia testes semelhantes em ambientes domésticos para obter esses dados “banais” do quotidiano. É ainda referido que uma empresa de entregas já está a obrigar os seus funcionários a usarem sensores de rastreamento de movimentos enquanto moviam e arrumam as caixas, utilizando esses dados para treinar os robots. Dito isto, os investigadores afirmam que são os próprios trabalhadores humanos a executarem os seus movimentos manuais como veículo de recolha de dados, numa escala massiva, para treinar as máquinas inteligentes.
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Por outro lado, as teleoperações, onde a autonomia não é bem “autónoma”. É descrito que muitos robots, “vendidos” como autónomos, são na verdade, de forma parcial, controlados por operadores humanos à distância. Isto porque quando um robot falha ou tem pela frente uma tarefa mais complicada, quem assume o controlo é o operador remoto. Esta é mesmo uma proposta de contrato da startup 1X para o seu robot Neo, que custa cerca de 20 mil dólares.
Se um robot ficar preso ou se o cliente quiser que ele realize uma tarefa mais complicada, será um teleoperador, a partir da sede da empresa, a pilotá-lo, vendo o contexto através de duas câmaras. Mais uma vez, apesar do consentimento acordado no contrato, a privacidade das pessoas é colocada em causa.
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E por que razão as empresas estão a esconder o trabalho humano por trás dos robots humanoides? Segundo o MIT, porque beneficia os investidores e, claro, todo o marketing gerado em torno da tecnologia. Essa falta de transparência está a ser comparada ao Autopilot da Tesla, em que o público tinha uma percepção errada sobre o nível de autonomia e segurança do assistente de condução dos veículos da empresa de Elon Musk, gerando riscos legais e sociais. A Tesla chegou mesmo a ser condenada a pagar 240 milhões de dólares em indemnizações, além de processos de investigação de segurança pelo regulador.
As fabricantes são também acusadas de falta de transparência, não revelando como treinam os robots, não explicando quando existe teleoperação ou não mostram quem está por trás da recolha dos dados essenciais para treinar as máquinas. Na sua conclusão, o estudo alerta que a IA física dos robots continua a depender do trabalho humano invisível, seja na recolha de dados, como nas teleoperações, subestimando o impacto social, laboral e ético desta nova indústria.
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