A NASA assinalou esta segunda-feira, dia 16 de março, os 100 anos desde o lançamento do primeiro foguetão de teste com combustível líquido. O feito pertence a Robert H. Goddard e na altura não foi considerado impressionante, pois subiu a pouco mais de 12 metros de altura, num voo de apenas 2,5 segundos. O certo é que este lançamento viria a ser a base para os voos espaciais desde então, com recurso a combustível líquido.

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Como reporta o New York Times, a 16 de março de 1926, Robert Goddard utilizou o campo agrícola da sua tia em Auburn, no Massachusetts, numa manhã fria e nevada, para lançar o foguetão com combustível líquido. Esta espécie de Cabo Canaveral improvisado abriu caminho às missões espaciais, ao envio de satélites, sondas e missões tripuladas à Lua e ao Espaço. E como registou o historiador Kevin Schindler, se os irmãos Wright levaram o homem aos céus, Robert Goddard levou-o ao Espaço e mais além.

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Robert Goddard inspirou-se nas obras literárias de ficção científica de H.G. Wells e Jules Verne e segundo o próprio, com 17 anos, depois de subir uma cerejeira, imaginou criar um veículo capaz de viajar até Marte. Tornou-se professor de física aos 31 anos, na Universidade de Clark, onde começou a fazer experiências com foguetões. Até então, os foguetões que há séculos se faziam na China utilizavam combustível sólido, como por exemplo, os pequenos cartuchos de fogo de artifício.

O combustível sólido era como um pedaço de dinamite, pois uma vez aceso já não se podia apagar. Goddard, juntamente com outros dois cientistas, Konstantin Tsiolkovsky da Rússia e Hermann Oberth da Alemanha, consideravam que o combustível líquido permitia mais potência e controlo. Restava saber se isso funcionaria na prática. Apesar de não existirem redes sociais ou sequer Internet na altura, a ideia foi ridicularizada na imprensa e Goddard foi até chamado lunático.

Há 100 anos um voo de 2,5 segundos mudou a história dos foguetões. E tudo começou num campo de couves
Há 100 anos um voo de 2,5 segundos mudou a história dos foguetões. E tudo começou num campo de couves Créditos: Clark University Archives and Special Collections (via New York Times)

Por não existir hidrogénio líquido, o cientista utilizou gasolina como combustível. O foguetão foi batizado de Nell, composto por um sistema de tanques onde linhas de combustível externas conduziam a gasolina e o oxigénio líquido até à câmara de combustão. No dia histórico, perto do meio-dia, Goddard, ajudado pela esposa e dois assistentes, montaram o foguetão numa estrutura de lançamento que tinha cerca de três metros de altura. O sistema foi aceso com um maçarico preço a uma vara longa e mesmo sem contagem decrescente houve tempo para se abrigarem atrás de uma barreira de madeira.

Apesar da sua esposa Esther ter filmado, apenas sete segundos de cada vez, o momento exato dessa descolagem acabou por não ficar registado, pois o voo durou apenas 2,5 segundos, mas o rasto de fumo ficou imortalizado. O voo foi muito curto, tendo subido os 12 metros, mas inclinou-se pela falta de sistema de orientação, tendo depois caído cerca de 56 metros adiante, num campo de couves.

Mais uma vez, a imprensa não deu importância ao facto e mesmo Goddard apenas escreveu o registo no seu diário. O seu trabalho era sempre feito em isolamento por causa das críticas, mas obrigou os assistentes a assinar acordos de confidencialidade. O seu trabalho era registado diariamente num notário, tendo listado ao longo da sua vida 200 patentes. O cientista continuou as suas experiências na quinta, fazendo outros lançamentos, chegando a atingir 27 metros de altitude. Os seus testes passaram para Roswell, no Novo México, realizando dezenas de lançamentos, alguns chegando aos 3 km de altitude.

Há 100 anos um voo de 2,5 segundos mudou a história dos foguetões. E tudo começou num campo de couves
Há 100 anos um voo de 2,5 segundos mudou a história dos foguetões. E tudo começou num campo de couves Créditos: NASA Goddard Space Flight Center (via Flickr)

Morreu em 1945, mas o seu trabalhou acabou por ser reconhecido mais tarde, tendo-se tornado a base da tecnologia espacial moderna, desde os aviões V-2 da Alemanha Nazi a mais tarde o foguetão Saturn V da NASA. O cientista faleceu antes de ver o soviético Yuri Gagarin chegar ao Espaço em 1961 ou os passeios na Lua em 1969 por Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Já a NASA prestou-lhe homenagem, batizando em 1959 o Centro de Voos Espaciais Goddard.

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