Nas imediações do Observatório do Paranal, um megacomplexo industrial de hidrogénio e amónia verdes ameaçou alterar equilíbrios frágeis onde a escuridão é medida com o rigor de um instrumento científico. O cancelamento do projeto INNA um megacomplexo industrial devolve agora tranquilidade à comunidade científica, ou não se tratasse de um dos céus noturnos mais valiosos do planeta para sondar o Universo.

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O Observatório do Paranal tem contribuído para muitas observações e descobertas astronómicas feitas no âmbito do ESO, como algumas das apresentadas na galeria de imagens.

A decisão de suspender o projeto surge após meses de contestação da comunidade científica e de uma análise técnica detalhada do European Southern Observatory (ESO), que concluiu que o empreendimento causaria “danos severos e irreversíveis” às condições únicas da região. Em causa estavam impactos como poluição luminosa, microvibrações, poeiras e aumento da turbulência atmosférica, fatores capazes de comprometer o desempenho de algumas das mais avançadas infraestruturas astronómicas do mundo, como o Very Large Telescope (VLT) ou o Extremely Large Telescope (ELT), atualmente em construção.

Juntamente com o o VLT Interferometer (VLTI) e com o Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO-South), têm em comum serem dependentes de uma combinação rara: escuridão extrema, estabilidade atmosférica e ausência de interferências artificiais.

De acordo com o relatório, o INNA aumentaria a poluição luminosa em mais de 35% sobre o Very Large Telescope (VLT), localizado a 11 quilómetros da área projetada, e em mais de 50% sobre o Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO-Sul), situado a apenas cinco quilómetros.

Quando INNA foi submetido à avaliação ambiental no Chile, o alerta do ESO desencadeou uma mobilização internacional. Investigadores, decisores políticos e cidadãos manifestaram preocupação quanto ao risco de comprometer uma região amplamente considerada a melhor do mundo para a astronomia ótica.

Em causa estava o paradoxo de um projeto de energia limpa poder gerar efeitos colaterais potencialmente devastadores para outro tipo de “infraestrutura estratégica”: a capacidade humana de observar o cosmos.

O diretor-geral do ESO, Xavier Barcons, afirmou que a organização acolheu com satisfação o anúncio da empresa. Segundo o responsável, a localização prevista para o INNA representava uma ameaça significativa “aos céus mais escuros e límpidos da Terra”.

A própria empresa justificou a decisão com uma reorientação estratégica para o seu portfólio de energias renováveis. O caso não coloca em causa, sublinha o ESO, a compatibilidade entre projetos industriais e observatórios astronómicos. A questão central é a distância e o enquadramento territorial. Projetos de descarbonização e ciência podem coexistir, desde que respeitem critérios rigorosos de localização e proteção ambiental.

O episódio veio também reforçar um debate mais amplo: a necessidade urgente de medidas claras e vinculativas para proteger as áreas circundantes dos grandes observatórios. A preservação do chamado “céu escuro e silencioso” tornou-se um tema que ultrapassa fronteiras académicas e nacionais.

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