Por Pedro Caetano (*)

À medida que as empresas crescem, trabalhar com pequenas equipas ágeis, cada uma por si, isto é, implementar Scrum de forma isolada, já não é suficiente. Múltiplas equipas a trabalhar em produtos ou iniciativas distintas, muitas vezes com dependências críticas entre si, exigem um enquadramento comum que vá além do trabalho individual. O SAFe (Scaled Agile Framework) surge exatamente para preencher essa lacuna, ligando equipas técnicas, negócio e liderança num mesmo rumo e criando condições para que a agilidade escale sem fragmentação.

A visibilidade é talvez o maior trunfo desta abordagem. Com vários projetos em paralelo, o risco de dispersão é real. No SAFe, cada equipa mantém o foco nas suas tarefas, mas ganha consciência do todo — a tão conhecida big picture. Todos sabem onde estão, para onde vão e como o seu trabalho contribui para os objetivos estratégicos. Esta visão reduz redundâncias, antecipa bloqueios e melhora a tomada de decisão.

Um dos momentos centrais do SAFe é o Planning Interval (PI) planning, geralmente realizado a cada três meses. Este encontro junta equipas e negócio num alinhamento profundo, sendo frequente envolver mais de uma centena de pessoas — por exemplo, 125 colaboradores distribuídos por 12 equipas ou squads, em linguagem tecnológica — para identificar dependências, definir prioridades e criar compromissos realistas. Mais do que um plano, cria-se alinhamento coletivo.

Ao longo de cada ciclo, existem também múltiplos pontos de feedback, que permitem ajustar esforços em tempo útil. Ciclos curtos e checkpoints frequentes explicam a vantagem do SAFe: em modelos tradicionais, só no final é que se percebia se o trabalho estava alinhado com os objetivos, o que se traduzia em custos elevados de correção. Com esta abordagem, o foco deixa de ser apenas entregar, passando para maximizar impacto.

O fator humano é igualmente crítico. O SAFe promove colaboração real, responsabilidade partilhada e uma ligação clara entre estratégia e execução. As equipas deixam de trabalhar em silos e compreendem o impacto do seu contributo. Para organizações em crescimento, esta integração permite escalar sem reorganizações constantes, mantendo todos a trabalhar na mesma direção.

E é neste contexto que a Inteligência Artificial pode entrar como complemento. Automatizando tarefas repetitivas e apoiando decisões, a IA acelera processos individuais e dá às equipas tempo para se concentrarem no trabalho de maior valor. Mas, sem a estrutura do SAFe, mesmo com a tecnologia mais avançada não se consegue garantir que todos trabalhem alinhados em direção ao mesmo objetivo.

(*) Diretor do Private Banking Pole na KLx