Por Andreia Trigo (*)
Portugal orgulha-se do seu talento científico. Nas universidades e centros de investigação, as mulheres representam cerca de metade dos investigadores e são maioria em várias áreas das ciências da vida. Mas quando a inovação sai do laboratório e entra nas estruturas de decisão, o cenário altera-se: apenas cerca de um terço dos cargos de gestão são ocupados por mulheres.
Na HealthTech, o paradoxo é mais acentuado. É um setor alimentado por talento feminino: nas universidades, nos hospitais, nos laboratórios, mas onde as decisões estratégicas, o capital e a escala continuam maioritariamente masculinos. Quanto maior a presença na base científica, mais evidente se torna a ausência no topo.
O financiamento é onde a desigualdade se cristaliza: equipas exclusivamente femininas continuam a receber cerca de 2% do capital de risco global, mesmo quando estudos demonstram que equipas lideradas por mulheres apresentam uma eficiência de capital superior, gerando aproximadamente duas vezes mais receita por dólar investido. Não estamos perante uma questão ideológica, mas económica: capital está a ser alocado de forma ineficiente.
Na nossa experiência na Enhanced Fertility, a construção de infraestrutura clínica digital baseada em agentes de IA capazes de integrar dados, exames e decisões clínicas num percurso validado, mostrou-nos duas realidades paralelas. Por um lado, o reconhecimento técnico: hospitais, médicos e parceiros compreendem o impacto estrutural de automatizar jornadas clínicas complexas. Por outro, o escrutínio acrescido quando se trata de escalar e captar capital. Em áreas como fertilidade, frequentemente rotuladas como “nicho”, o viés amplifica-se, apesar de falarmos de um desafio demográfico crítico para o país.
Portugal enfrenta uma das taxas de fecundidade mais baixas da União Europeia. Em 2024, 68,5% das consultas de Procriação Medicamente Assistida no SNS ocorreram fora do prazo legal. A ineficiência não é apenas clínica; é sistémica. Tecnologia aplicada com rigor científico pode aumentar capacidade, reduzir tempos de espera e libertar recursos médicos. A questão é: quem recebe o capital para construir essas soluções?
Se queremos um ecossistema tecnológico competitivo, precisamos de alinhar mérito e acesso a financiamento. Diversidade não é uma agenda paralela à tecnologia. É um fator direto de performance, retorno e sustentabilidade.
Por agora, o talento está distribuído. O capital não.
E enquanto essa assimetria persistir, a inovação portuguesa continuará abaixo do seu verdadeiro potencial.
(*) Andreia Trigo, RN BSc MSc, é enfermeira de formação e empreendedora, cofundadora da SedateUK e CEO da Enhanced Fertility
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