A passagem da depressão Kristin por Portugal causou danos extensos nas infraestruturas críticas, deixando milhares de pessoas sem acesso a serviços de telecomunicações. Ainda no ano passado, o apagão elétrico em abril tinha causado o que foi descrito como um "colapso grave, generalizado e histórico" nas redes móveis, tanto em Espanha como em Portugal. Na altura foram apontadas soluções e reconhecidas fragilidades, mas a rede voltou a falhar.

Esta semana, Sandra Maximiano, presidente da ANACOM, apontou para a necessidade de refletir sobre a resiliência das telecomunicações, com medidas que passam, por exemplo, por repensar algumas infraestruturas para estruturas subterrâneas, tendo em conta os alertas de especialistas para o aumento de fenómenos meteorológicos extremos.

Neste contexto, que papel podem desempenhar as redes mesh de rádio de longo alcance? Para os promotores do SIREN (ou Sistema Independente de Rede de Emergência Nacional), a tecnologia pode fazer a diferença mas há limitações à utilização generalizada.

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O projeto, que está em fase de desenvolvimento, é uma iniciativa da CyberS3c e quer usar uma rede mesh baseada em tecnologia LoRa (Long Range) para criar “uma rede de comunicações de emergência resiliente, descentralizada e independente das operadoras tradicionais”, explicam os fundadores, Sérgio Silva e David Russo, em resposta ao TEK Notícias.

De acordo com os fundadores, o projeto começou a ser desenhado após o apagão de 2025, um evento que “evidenciou de forma clara a fragilidade das infraestruturas críticas e a dependência excessiva das telecomunicações centralizadas e da rede elétrica”, com a ausência de comunicações a dificultar “a coordenação, o acesso à informação e a resposta a situações de emergência” em muitos locais.

“O SIREN surge como resposta direta a essa realidade”, afirmam. Concebido para “funcionar quando as telecomunicações tradicionais falham”, incluindo em cenários de apagões, catástrofes naturais ou falhas prolongadas, o sistema quer permitir a troca de mensagens essenciais, pedidos de ajuda, coordenação local e a difusão de informação crítica, atuando como “uma camada de comunicação de último recurso”, complementando os sistemas oficiais.

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As redes mesh de rádio de longo alcance não são uma tecnologia nova, sendo usadas há vários anos por diferentes projetos, baseados em sistemas de comunicação descentralizados e de código-aberto, como o Meshtastic ou Meshcore, com comunidades a nível internacional e em Portugal.

No nosso país encontramos, por exemplo, a Meshtastic Portugal, descrita como um projeto aberto e colaborativo que promove o uso do sistema Meshtastic, concebido para unir entusiastas, makers e comunidades locais, que conta com um grupo com mais de 1.300 membros no Telegram.

A esta juntam-se o projeto Meshcore Portugal, com mais de 400 membros no Telegram e mais de 300 no Facebook, que inclui iniciativas “alimentadas” por sistemas MeshCore como o Plano 3-3-3, descrito como uma rede de comunicações alternativas via rádio, que liga pessoas em caso de emergência.

Vantagens das redes mesh e limitações ao uso generalizado

Olhando para o SIREN, cujo funcionamento é detalhado neste whitepaper, os fundadores do projeto indicam que cada dispositivo que faz parte da rede “funciona como um nó capaz de enviar, receber e retransmitir mensagens”.

“Não existe um ponto central de controlo, o que torna a rede resiliente e capaz de continuar a funcionar mesmo quando parte dos nós fica indisponível”, afirmam, acrescentando que a “comunicação é de baixo consumo energético e adequada a cenários de infraestrutura degradada”.

Nesse sentido, os responsáveis apontam para vantagens como o facto de não depender da Internet ou de redes móveis, apresentando-se como um projeto “descentralizado, comunitário e totalmente open source”.

Veja o vídeo

No entanto existem limitações, incluindo aquelas que estão associadas à largura de banda reduzida da tecnologia LoRa, que “obriga à utilização de mensagens curtas e objetivas”.

Além disso, os fundadores do projeto apontam que a cobertura “depende da correta distribuição geográfica dos nós”, existindo também “limitações inerentes à comunicação por rádio, como interferências ou jamming” que apenas podem ser mitigadas “através de redundância e boa arquitetura de rede”.

É também necessário ter em conta que os dispositivos utilizados em redes deste tipo são equipamentos que, além do custo, exigem conhecimentos técnicos específicos para garantir o funcionamento adequado, o que pode limitar a sua utilização generalizada.

Atualmente, o projeto SIREN conta com mais de 50 voluntários ativos, numa comunidade que, segundo os fundadores, continua a “crescer diariamente”.

Os próximos passos envolvem a expansão da rede piloto, o aumento do número de nós comunitários, a consolidação do sistema de formação para difusão do conhecimento, o reforço da segurança dos dispositivos e a instalação de nós em locais estratégicos.

No futuro, o projeto prevê ainda a “integração estruturada de alertas governamentais na rede”, indicam os responsáveis, realçando o objetivo de “tornar o SIREN uma rede de emergência funcional, sustentável e replicável a nível nacional, suportada por uma comunidade ativa de voluntários”.

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