Uma investigação revelou um mercado de recrutamento ativo no Telegram para um novo tipo de função ao serviço das burlas digitais: a das "modelos" de IA. São pessoas reais, na maioria mulheres jovens, oriundas de países como a Turquia, Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e de vários países asiáticos, que se candidatam voluntariamente para dar um rosto humano a esquemas de fraude sofisticados no Sudeste Asiático.
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O método é simples mas eficaz: as pessoas contratadas precisam de ficar sentadas à frente de um computador, realizam videochamadas com filtros de IA sobrepostos ao rosto para convencer as vítimas de que estão a falar com uma pessoa genuína, avança a investigação da revista Wired.
O esquema enquadra-se nas chamadas burlas "pig butchering", nome dado aos golpes de investimento em criptomoedas ou em ouro, em que as vítimas são manipuladas durante semanas ou meses antes de serem defraudadas. Quando uma vítima pede uma videochamada para confirmar que está a falar com uma pessoa real, é aí que entram as "modelos" de IA, com rostos humanos autênticos, com filtros aplicados em tempo real, para tornar a ilusão convincente.
Algumas instalações no Sudeste Asiático têm mesmo "salas de IA" dedicadas exclusivamente a estas chamadas. Os anúncios de emprego, que foram identificados por um hacker reformado, são reveladores. Um deles estipula "aproximadamente 100 videochamadas por dia", embora existam outros chegam às 150. As condições de trabalho descritas incluem turnos entre as 22h e as 10h do dia seguinte, apenas um dia inteiro de folga por mês, e a retenção do passaporte pela entidade empregadora.
Segundo a descrição dos anúncios encontrados, um deles chegava mesmo a indicar que "os filtros podem ser usados, mas a imagem deve parecer realista. Perucas são proibidas." A maioria das candidaturas analisadas foram enviadas por mulheres jovens, na casa dos vinte anos. Algumas revelam explicitamente a natureza do trabalho, chegando mesmo a indicar terem experiência em plataformas de burla em criptomoedas", e em "love scam". Muitos anúncios evitam linguagem direta, mas usam terminologia característica destes esquemas, como "clientes" em vez de "vítimas", e referências frequentes a investimentos em criptomoeda ou ouro.
O investigador Frank McKenna, especialista em fraude, chegou a intercetar mensagens enviadas à sua mãe e organizou videochamadas com as remetentes. Numa delas, a jovem do outro lado da câmara usava visivelmente um filtro de IA no rosto. "O único propósito daquela chamada era provar que era uma pessoa real e ganhar confiança", disse o investigador. Semanas depois, reconheceu a mesma mulher a publicar um novo vídeo de candidatura, revelando assim que o anterior contrato tinha terminado e procurava um novo.
A Wired chegou a contactar o Telegram, divulgando uma lista de duas dúzias de canais de recrutamento envolvidos nestes esquemas de burla com recurso a IA. Um porta-voz respondeu, afirmando que, de acordo com os termos de utilização, que os utilizadores estão proibidos de usar a plataforma para qualquer tipo de atividade ilegal, como a associação a burlas. Porém, até ao momento, o Telegram não removeu nenhum dos canais identificados.
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