A ideia parece saída de um filme de ficção científica: usar espelhos em órbita para refletir a luz do Sol e iluminar a Terra durante a noite. A proposta, que até há pouco tempo parecia apenas um conceito futurista, está agora mais perto de um primeiro teste real.
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A startup americana Reflect Orbital aguarda neste momento uma decisão da Federal Communications Commission (FCC), a entidade norte-americana que autoriza o lançamento e operação de satélites. A empresa pediu licença para colocar em órbita um protótipo equipado com um grande espelho refletor, o primeiro passo de um projeto que pretende criar uma constelação de milhares de satélites capazes de redirecionar a luz solar para pontos específicos da Terra durante a noite.
Se a autorização chegar, o satélite experimental poderá ser lançado ainda este ano. O objetivo é testar uma tecnologia que, segundo os seus promotores, poderia ajudar a resolver um dos problemas centrais da energia solar: a interrupção da produção quando o Sol se põe. Mas os objetivos são maiores e a ideia é ter uma constelação de mais de 50 mil satélites até 2035.
Um “ponto de Sol” a meio da noite
O princípio é relativamente simples. Cada satélite transportaria um espelho leve e dobrável que, depois de colocado em órbita, se abriria para refletir a luz solar para a superfície do planeta. A empresa prevê posicionar os satélites em órbitas sincronizadas com a fronteira entre o dia e a noite - a chamada linha do terminador - de forma a estarem sempre iluminados pelo Sol enquanto apontam a luz para regiões já mergulhadas na escuridão.
De acordo com a própria empresa, o sistema permitiria criar “manchas de luz” localizadas, com vários quilómetros de diâmetro, que poderiam iluminar temporariamente áreas específicas da superfície terrestre. Essa iluminação seria ajustável e poderia variar desde um brilho semelhante ao da Lua cheia até níveis mais intensos, dependendo do número de satélites usados ao mesmo tempo.
Na visão da Reflect Orbital, a tecnologia poderia servir para prolongar o funcionamento de centrais solares depois do pôr do sol, iluminar operações de emergência ou fornecer luz temporária em locais remotos sem necessidade de infraestrutura no solo.
O primeiro protótipo será relativamente pequeno, com aproximadamente o tamanho de um frigorífico compacto, mas abrirá um espelho com cerca de 18 metros de largura depois de atingir a órbita, a cerca de 600 quilómetros de altitude. O feixe refletido poderia iluminar uma área com alguns quilómetros de diâmetro, visível a partir do solo como um ponto brilhante no céu.
Esse satélite experimental seria apenas o início. A empresa fala numa expansão progressiva da constelação, com dezenas de satélites nos primeiros anos e milhares até ao final da década. A meta mais ambiciosa aponta para dezenas de milhares de espelhos orbitais até meados da década de 2030.
A tecnologia não é totalmente nova. Ideias semelhantes surgiram ao longo do século XX, e uma experiência russa, realizada em 1993, chegou a refletir brevemente um feixe de luz solar sobre a Terra usando um espelho espacial. No entanto, nenhum projeto avançou para aplicações práticas em larga escala.
Entre promessa energética e preocupação científica
A proposta da Reflect Orbital tem despertado tanto entusiasmo tecnológico como fortes críticas da comunidade científica.
Astrónomos alertam que objetos deliberadamente concebidos para refletir luz intensa podem aumentar significativamente a poluição luminosa no céu noturno, interferindo com observações astronómicas já afetadas pelo crescente número de satélites em órbita. Outros especialistas apontam possíveis impactos em ecossistemas e nos ciclos biológicos de animais e plantas, que dependem da alternância natural entre luz e escuridão.
A empresa diz que está a trabalhar com a comunidade de astrónomos para garantir que o seu projeto não afeta a observação astronómica, e protege zonas específicas, e num esquema básico mostra como pode "desligar a luz".
Há ainda dúvidas sobre a própria eficácia do sistema. Alguns cálculos sugerem que seriam necessários milhares de satélites a apontar simultaneamente para o mesmo local para produzir uma fração significativa da intensidade da luz solar natural.
O teste inicial poderá fornecer dados reais sobre o funcionamento do conceito, mas a questão é que a decisão da FCC não avaliará diretamente os impactos ambientais ou astronómicos da tecnologia, mas apenas questões relacionadas com comunicações e segurança orbital.
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