Por Luís Pereira (*)
Durante os últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) viveu dentro de uma caixa. Dava respostas imediatas, explicava conceitos e ajudava a encontrar informação, mas permanecia confinada ao diálogo. Não tinha impacto direto na vida real, não executava tarefas nem interagia com ferramentas do dia a dia. Já era impressionante, mas isolada.
Essa fase poderá estar a chegar ao fim. O surgimento do Model Context Protocol (MCP) marca o início de uma etapa em que os agentes de IA deixam de ser apenas modelos que respondem e passam a ser assistentes capazes de agir. Em vez de atuarem isolados numa janela de chat, começam a ligar-se ao ecossistema digital e a comunicar diretamente com aplicações, sistemas e dados, transformando intenções humanas em ações concretas.
O MCP não é uma nova tecnologia, mas sim um protocolo aberto que define uma forma comum de expor capacidades digitais. Em vez de integrações desenvolvidas caso a caso, o MCP reorganiza funcionalidades já existentes num modelo partilhado e extensível, permitindo que aplicações e agentes comuniquem de forma consistente. Não acrescenta autonomia à IA por si só, mas cria as condições para que sistemas inteligentes atuem de forma mais coordenada e operacional.
O impacto desta abordagem torna-se mais claro quando olhamos para tarefas quotidianas. Na organização de uma viagem, por exemplo, em vez de abrir vários sites para comparar voos, ver hotéis e confirmar datas, o utilizador pode simplesmente indicar ao agente o que pretende. O agente pesquisa opções, cruza resultados e apresenta uma proposta final pronta a avaliar. Em contexto empresarial, o mesmo princípio pode ajudar a analisar dados financeiros ou gerar relatórios com informação consolidada, reduzindo trabalho manual e repetitivo.
Esta visão não é totalmente nova. Em 1987, a Apple apresentou o Knowledge Navigator, onde um professor interagia com um assistente digital que cruzava informação, antecipava necessidades e preparava relatórios. Durante décadas, isso permaneceu no território da ficção científica. Hoje, estamos mais próximos dessa realidade, não porque a IA tenha evoluído de forma radical, mas porque o MCP fornece a camada de organização que faltava para ligar modelos inteligentes ao mundo real com menos esforço e maior previsibilidade.
Até agora, cada integração dependia de APIs diferentes, regras próprias e horas de desenvolvimento. Cada sistema falava a sua língua, tornando o processo caro, lento e difícil de escalar. O MCP simplifica estas integrações ao criar um standard comum para descrever o que uma aplicação faz, permitindo que os agentes interpretem essas capacidades de forma consistente. É como se todas as ferramentas passassem a usar o mesmo dicionário, não elimina a complexidade, mas torna-a mais fácil de gerir.
Do ponto de vista técnico, implementar um MCP server implica descrever claramente as funcionalidades da aplicação e afinar mensagens para que o assistente interprete corretamente o que lhe é pedido. Esta "tradução" entre linguagem humana e ações digitais exige cuidado e precisão, mas é também o que pode tornar a experiência final simples e intuitiva para o utilizador.
Esta evolução também traz desafios. Sendo um protocolo aberto, qualquer pessoa pode criar integrações, o que exige mecanismos de validação para garantir segurança da informação e confiança. Tal como acontece em qualquer ecossistema tecnológico em fase inicial, será importante garantir mecanismos de curadoria que evitem integrações maliciosas ou instáveis e assegurem qualidade num ambiente em rápida expansão.
Estamos perante uma mudança estrutural na forma como trabalhamos com a IA, não porque esta se torna automaticamente mais capaz, mas porque passamos a integrar inteligência e sistemas de forma alinhada com as necessidades reais. O potencial já não reside apenas no modelo, mas na forma como o conectamos ao mundo. E, desta vez, a ficção científica parece estar finalmente ao alcance do quotidiano.
(*) Research and Development Director da Opensoft
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