Por João Martins (*)
A Inteligência Artificial é o tema do momento. Está nas agendas, nos orçamentos, nos comunicados de imprensa, nas conversas, nas estratégias, e há muito que deixou de ser um tema periférico nas organizações portuguesas. A Agenda Nacional de IA e o PRR trouxeram financiamento, visibilidade e uma narrativa de modernização tecnológica que, em teoria, deveria transformar o tecido empresarial português.
Neste contexto, a grande questão que se coloca, é: está a funcionar?
Há uma diferença enorme entre um país que investe em IA e um país que a sabe usar e tira real partido desse investimento. O desafio está na forma como seremos capazes de aproveitar esta oportunidade e concretizá-la no terreno.
É inegável que as grandes empresas conseguem adotar IA mais rapidamente do que as PME. Têm equipas dedicadas, maior capacidade de investimento, infraestruturas tecnológicas mais maduras e estruturas de governança já estabelecidas. Para elas, a Agenda Nacional de IA funciona como um acelerador. Já para as PME – que são a esmagadora maioria do tecido empresarial português – a realidade é diferente. Muitas estão ainda em processo de modernização aplicacional, organização de dados e na tentativa de perceber o que precisam, antes de avançarem com modelos preditivos e complexos.
Para estas empresas, a adoção de IA exige não apenas financiamento, mas também orientação estratégica, capacitação e apoio à integração tecnológica. Canalizar recursos para organizações que ainda não definiram o que pretendem alcançar com a IA não acelera a transformação, limita-se a adiar o confronto com os problemas de fundo. O risco mais preocupante não é a “não-adoção”. É a adoção precipitada, desalinhada com a estratégia, por pressão concorrencial ou por medo de ficar para trás. Um fracasso na adoção deixará as empresas mais céticas do que antes e com menos apetite para uma segunda tentativa.
Uma economia a duas velocidades não se evita com financiamento equitativo, mas com a qualidade do acompanhamento. E quando esse acompanhamento existe, a dimensão da empresa, sendo relevante, deixa de ser o fator decisivo.
O que verdadeiramente distingue as organizações que retiram valor consistente da IA daquelas que ficam reféns de iniciativas pontuais é a abordagem. As empresas que geram impacto real começam pelo problema e não pela solução: identificam desafios concretos de negócio, alinham a tecnologia com objetivos estratégicos e asseguram uma integração efetiva nos processos existentes.
Por outro lado, quando a IA é tratada como um projeto paralelo, desligado da estratégia e dos processos críticos, tende a gerar ganhos limitados e dificuldade em escalar. É precisamente nas organizações que evitam esta armadilha que se torna visível uma mudança mais profunda – o chamado “shift”, onde a IA deixa de ser um instrumento de automação operacional e passa a assumir um papel central como motor de decisão, capaz de antecipar cenários, suportar escolhas estratégicas e reforçar a capacidade de resposta ao mercado.
Portugal tem condições para capturar valor real com esta Agenda e o objetivo deve ser claro: transformar investimento em maturidade digital. Mas isso não acontecerá por decreto nem por pressão de adoção. Acontecerá nas organizações que tratarem a IA como uma questão de estratégia e não de tendência, que investirem em dados antes de investirem em modelos e que tiverem a humildade de começar pequeno e a disciplina de só escalar o que funciona.
O financiamento está disponível, a oportunidade é real, mas a vantagem competitiva duradoura será capturada por quem souber executar com consistência, e não por quem chegar primeiro.
(*) Data Analytics & AI Senior Manager
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