A pandemia de COVID-19 levou a uma crise e escassez sem precedentes na área dos componentes eletrónicos, afetando todas as indústrias que necessitassem de semicondutores, ou seja, computadores, smartphones, automóveis e consolas de gaming, para dar alguns exemplos. Na indústria automóvel, por exemplo, deixou-se de conseguir produzir milhares ou milhões de veículos.

A falta de chips, críticos para todas as funções do carro associadas à informação de sensores, foi um dos principais problemas e demorou cerca de dois anos a resolver, além dos preços astronómicos associados aos custos de produção.

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Atualmente vive-se uma nova crise no sector, com os preços das memórias RAM a dispararem em 2025 e continuam a subir neste início do ano, chegando a aumentos na casa dos 50%. Em alguns segmentos, como as memórias DDR5, que fazem parte dos computadores de gaming, por exemplo, chegou a aumentar cerca de 300% em apenas alguns meses, pela sua elevada escassez.

Ainda recentemente, a HP revelou que a memória RAM já representa 35% dos custos totais de cada computador que fabrica. Acredita também que esse aumento vai continuar ao longo do ano, colocando assim uma pressão adicional nas margens de lucro num mercado já de si muito competitivo. Para mitigar os preços da RAM, a fabricante procura reduzir os custos em outros elementos.

Um recente relatório da Gartner aponta que devido à escassez da RAM, as entregas de computadores vão cair 10,4% e, pelos mesmos motivos, os smartphones baixam 8,4%. Até ao final do ano, a combinação dos custos das memórias RAM e das unidades SSD vai significar um aumento de 130%, aumentando a média do preço nos computadores em 17% e dos smartphones em 13%.

Existem atualmente quatro fabricantes de memórias, consideradas as “gatekeepers” do fornecimento, que colectivamente somam cerca de 70% das entregas globais: Samsung e SK Hynix da Coreia do Sul, Micron dos Estados Unidos e um conjunto de fabricantes chinesas como a CXMT, YMTC e a ChangXin. Todas elas têm estratégias diferentes, como reporta a Intuition Labs.

A Samsung, que é a maior fabricante, está a negar contratos de longa duração para o fornecimento de memórias, escolhendo vender a curto prazo e a preços mais elevados a quem esteja disposto a pagar. A empresa terá aumentado em mais de 60% o preço desde setembro de 2025. As restantes empresas estão a direcionar as suas produções para as memórias de elevada performance, sobretudo a Micron, tradicionalmente fornecedora de RAM para PC, tem vindo a retirar a sua oferta do segmento de consumo.

Qual é a razão da escassez de RAM e aumento do preço?

Tudo se deve às necessidades dos supercomputadores de inteligência artificial nos centros de dados. As grandes empresas de fornecimento de serviços cloud estão a comprar grandes quantidades de memórias HBM, GDDR e DRAM, ou seja, memórias de alto desempenho utilizados nos servidores. Isso deve-se às necessidades elevadas de processamento para treinar os modelos de IA, preenchendo grande parte da capacidade das fabricantes.

Por outro lado, as empresas que necessitam destes componentes estão a realizar compras agressivas e a criar stocks exagerados de memórias, o que agrava a escassez e obriga ao aumento dos preços.

O que as necessidades da IA têm a ver com as memórias para os computadores de gaming e consolas?

As principais fabricantes de memórias estão a redirecionar a sua capacidade de fabrico para as memórias de alto desempenho, que são bem mais lucrativas. Neste sentido, a cadeia de produção que era suposto ser para as memórias dos equipamentos de consumo, incluindo computadores, consolas ou mesmo smartphones, está a ser preenchida pelas necessidades de produção das memórias para servidores. E com a escassez, vem o aumento de preço destes componentes vitais para os equipamentos eletrónicos.

PCs de gaming e smartphones de gama baixa podem desaparecer com esta crise?

Acredita-se que os modelos de gama de entrada dos computadores de gaming possam ter os dias contados. Estes produtos não são tão rentáveis e com o crescente aumento do preço das memórias RAM, componentes vitais para o seu funcionamento, podem deixar de fazer sentido para as fabricantes, uma vez que deixam de ser capazes de absorver esses custos adicionais. As previsões da Gartner é que em 2028, as gamas de PCs sub-500 dólares desapareçam do mercado.

O mesmo relatório aponta o mesmo destino para os smartphones de entrada de gama, cujos preços vão sofrer igualmente aumentos. A Gartner diz que o público-alvo destes equipamentos vão começar a adotar modelos recondicionados ou em segunda-mão. Por outro lado, os smartphones premium não são tão afetados devido às suas margens maiores.

Qual é o impacto na próxima geração de consolas PlayStation?

Mesmo sem ter anunciado oficialmente a próxima geração de consolas PlayStation, os indicadores apontavam 2027 como ano de mudança de geração. Considerando que a PS5 chegou em 2020, este é o sexto ano da consola, o que significa estar a entrar na reta final do seu ciclo de vida. Basta olhar para as anteriores mudanças de geração para perceber que em cada seis ou sete anos anos. No entanto, o lançamento da PS5 ficou marcado pela crise dos componentes gerada pela pandemia de COVID-19 e só dois anos depois é que a cadeia de produção ficou estabilizada.

Esse arranque morno poderá ditar um atraso na chegada da nova geração, mas agora com a nova crise de componentes, os analistas acreditam que a Sony não vai cometer o mesmo erro. A Bloomberg estima que a Sony possa adiar o anúncio da PlayStation 6 para 2028 ou 2029 devido à falta de RAM e SSD.

Os preços das consolas poderão aumentar?

Ainda não se sabe quais as especificações de futuras consolas, nomeadamente a PS6 e próxima Xbox (Project Helix). Atualmente, a PS5 e a Xbox Series X|S utilizam 16 GB de RAM GDDR6, mas os rumores apontam para que na próxima geração haja um aumento para 24-32 GB de memória GDDR7. Isto significa que só pelo upgrade da RAM, sejam adicionados entre 150 a 200 dólares ao custo de fabrico.

Como as fabricantes não conseguem absorver estes aumentos nas suas margens, isso pode significar que a fatura seja transferida para o consumidor final. Neste caso, pode significar preços a rondar entre os 700 e 800 dólares, caso se mantenham estas especificações. A isto acrescente-se, claro, a escassez das memórias, o que pode influenciar o volume de fabrico das consolas.

Outra solução apontada às futuras PlayStation e Xbox é criar versões Pro com mais memória a um preço superior e versões standard com memórias semelhantes às atuais.

Também a Nintendo poderá ter dificuldades em manter a produção das suas consolas Switch 2. A fabricante japonesa lançou a consola a um preço superior ao projetado pelos analistas, como que antecipando a crise destes componentes. Seria de esperar uma diminuição do preço nos anos seguintes, mas os planos podem passar por manter ou mesmo aumentar ainda mais o valor a pagar pelos consumidores.

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