Uma análise técnica exclusiva, recentemente divulgada pelo investigador Nariman Gharib, trouxe a público provas concretas de que o governo do Irão está a utilizar técnicas avançadas de falsificação de sinais GPS, conhecidas como spoofing, para degradar deliberadamente o serviço de internet via satélite Starlink. Esta estratégia ocorre num momento crítico, no contexto de um bloqueio quase total das comunicações imposto pelas autoridades iranianas desde o dia 8 de janeiro de 2026, como resposta a uma vaga de protestos em massa motivada por uma profunda crise económica e política.

Não perca nenhuma notícia importante da atualidade de tecnologia e acompanhe tudo em tek.sapo.pt

Os dados de telemetria, obtidos diretamente de um terminal Starlink a operar em território iraniano, documentam pela primeira vez a aplicação de guerra electrónica de nível estatal contra uma infraestrutura comercial de internet via satélite. Segundo o relatório, o equipamento detectou 18 satélites GPS com sinal aparentemente válido, mas ativou de imediato as suas contramedidas internas, definindo o parâmetro técnico "inhibitGps" como verdadeiro. Este comportamento do sistema prova que o hardware da SpaceX foi capaz de reconhecer que os sinais recebidos, apesar de apresentarem boa intensidade, não eram confiáveis e estavam a ser manipulados externamente.

O impacto desta interferência na qualidade da ligação foi devastador para os utilizadores. O terminal monitorizado registou uma perda de pacotes superior a vinte por cento e a ligação nunca conseguiu atingir um estado de total estabilidade durante o período de observação. Além da restrição severa na largura de banda, o apontamento da antena sofreu um desvio de cerca de um grau em relação ao alvo ideal, o que, num sistema de satélites em órbita baixa, é suficiente para tornar o serviço praticamente inutilizável para tarefas básicas de comunicação.

Tecnicamente, o ataque baseia-se no facto de os terminais Starlink dependerem criticamente do GPS para calcular a sua posição geográfica exata e determinar as coordenadas necessárias para comunicar com a constelação de satélites da SpaceX. Ao transmitir sinais falsos com maior potência do que os legítimos, o atacante consegue deixar o terminal "cego". Embora os sistemas de deteção da Starlink funcionem ao identificar a fraude, os algoritmos de posicionamento alternativos da empresa ainda não conseguem manter o desempenho normal sob estas condições de guerra electrónica agressiva, entrando num estado degradado de funcionamento.

Acesso à Internet continua bloqueado no Irão. Apagão já dura há 96 horas
Acesso à Internet continua bloqueado no Irão. Apagão já dura há 96 horas
Ver artigo

Especialistas em direitos digitais, como Amir Rashidi, diretor de segurança no Miaan Group, confirmam que esta interferência escalou rapidamente, atingindo picos de interrupção de tráfego superiores a oitenta por cento durante os períodos de maior agitação social. A sofisticação desta operação, que combina a falsificação de coordenadas de GPS com interferência direta nas frequências de banda Ku, sugere o uso de equipamento militar avançado, possivelmente desenvolvido através do complexo industrial militar iraniano, ou com apoio externo de nações como a Rússia ou a China.

Esta situação representa um marco preocupante na evolução da censura estatal. Estima-se que existam entre quarenta a cinquenta mil terminais Starlink a operar clandestinamente no Irão, servindo como uma ferramenta vital de resistência. No entanto, as consequências desta guerra eletrónica extravasam a esfera civil, afetando a segurança da aviação comercial e a navegação marítima no Golfo Pérsico, onde já foram reportados erros de posição críticos. O desafio recai agora sobre a SpaceX, que terá de desenvolver algoritmos de navegação mais robustos e independentes do GPS para garantir que a sua tecnologia permanece resiliente em ambientes de conflito.

Assine a newsletter do TEK Notícias e receba todos os dias as principais notícias de tecnologia na sua caixa de correio.