O Evaristo.ai é a “personagem” mais conhecida do trabalho feito na Faculdade de Ciências de Lisboa com os primeiros grandes modelos de linguagem (LLMs) abertos para a Língua Portuguesa, mas não é o único produto de uma família de modelos inteligentes desenvolvidos pelo Grupo de Fala e Linguagem Natural (NLX) e a spinoff OUSAR.AI.

Todos têm nomes bem portugueses, como o Albertina (codificadores), Serafim (vetorizadores) e Gervásio (descodificadores), e podem ainda não ser conhecidos pela maioria dos portugueses, mas o trabalho que está a ser feito quer ser uma base para a IA soberana, e a proteção de uma autonomia linguística, cultural e geopolítica face ao domínio de Big Tech como a OpenAI ou a Google com os seus ChatGPT e Gemini, ou o chinês DeepSeek.

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O Evaristo.ai foi apresentado em junho deste ano, como o primeiro chatbot de IA aberta para a língua portuguesa, e está disponível para quem o quiser experimentar. Na base estão os LLMs Gervário 8B e 70B, designações que indicam o número de parâmetros – 8 e 70 biliões, respetivamente, que suportam a inteligência das respostas. O trabalho está validado cientificamente, com um artigo publicado sobre o Gervásio 8B, um processo de revisão científica que também já foi preparado para o Gervásio 70B, que acaba de ser lançado.

A pedido do TEK Notícias, o Evaristo.ai apresentou-se e explicou o seu propósito: "Olá! Eu sou o Evaristo.ai, um assistente virtual baseado em inteligência artificial generativa. O meu propósito é ajudar as pessoas a encontrar respostas às suas perguntas de forma educada e objetiva, evitando excessos temperamentais. Estou aqui para fornecer informações úteis e responder às dúvidas dos utilizadores da melhor forma possível".

Veja as imagens do chatbot

Quando foi pedido para criar uma imagem da personificação do modelo e da "família", apresentou uma imagem com um aspecto pouco moderno e não muito português. Acabámos por recorrer a um "concorrente", neste caso o Copilot, para gerar a imagem que ilustra este artigo.

Imagem do Evaristo.ai para a
Imagem do Evaristo.ai para a créditos: Evaristo.ai

No início de novembro, o Evaristo.ia ganhou um “primo” que é especialista em Administração Pública e o crescimento da família pode não ficar por aqui, como explicou ao TEK Notícias António Branco, coordenador do projeto Evaristo.ai e professor no Departamento de Informática de Ciências da Universidade de Lisboa.

“A tendência na área é para a exploração dos chamados "small LLMs", que suportam chatbots que disponibilizam serviços especializados, que são aqueles que as organizações precisam e procuram”, explica António Branco

O investigador adianta ainda o exemplo de que “uma empresa de seguros, por exemplo, não precisa, nem quer que o seu chatbot fale de física atómica ou da situação médio oriente com os seus clientes”.

Seguindo esta linha estratégica, a spinoff OUSAR.AI está a trabalhar em mais chatbots especialistas, feitos à medida das necessidades de encomendas particulares, enquanto na investigação, e através da agenda "Accelerat", o grupo liderado pelo investigador está a iniciar agora um novo financiamento que foi conquistado em colaboração com a ARTE (gência para a Reforma Tecnológica do Estado – ex AMA), inserido num consórcio europeu do Digital Europe Programme.

“Neste enquadramento há novos chatbots especialistas a serem trabalhados na nossa equipa de investigação, focados no interesse público”, confirma António Branco.

Um modelo especializado para responder às dúvidas dos cidadãos sobre a Administração Pública

Ao contrário do Evaristo.ia generalista, o primeiro a ser apresentado, o seu “primo” especialista Evaristo.ai – Serviços Públicos foi pensado para dar respostas numa área específica. “Para conversar com o utilizador e ajudá-lo, o Evaristo.ai - Serviços públicos recorre ao seu conhecimento geral combinado com a base de conhecimento específico sobre serviços públicos, que é a informação constante das páginas no site gov.pt”, explica António Branco. A base do conhecimento está replicada nas máquinas da equipa do projeto, não existindo necessidade de fazer uma pesquisa da informação na web com as “contingências adicionais e imprecisões, eventualmente indesejáveis, que isso representaria”, refere.

O chatbot foi desenvolvido no âmbito um projeto de I&D, pelo grupo de investigação e foi financiado pela FCT com base numa candidatura apoiada pela ARTE. É um projeto em fase piloto e não há qualquer garantia de que possa ser usado no site gov.pt. “Competirá à ARTE decidir sobre o seu interesse nesta matéria”, afirma António Branco.

O portal que agrega a informação sobre os serviços públicos em Portugal já tem um chatbot que tinha sido lançado ainda em 2023, ligado aos temas da chave Móvel Digital, e que este ano foi atualizado com uma nova versão baseada no modelo ChatGPT da OpenAI, que passou a dar respostas em 12 idiomas. Para este ano estava prevista a integração de funcionalidades transacionais, que não ficaram disponíveis.

A informação disponibilizada pela equipa do Evaristo.ai indica que, “na avaliação do nível de adequação das respostas, o "Evaristo.ai - Serviços públicos" demonstra igualar ou suplantar o chatbot comercial atualmente em gov.pt”.

O Governo tem também em desenvolvimento o modelo Amália, que foi apresentado em 2024 no Web Summit, mas que ainda não está disponível publicamente nem integrado com nenhum serviço público, pelo menos que se saiba.

As últimas informações apontavam para uma utilização do Amália limitada à Administração Pública. “O modelo será utilizado em aplicações específicas da Administração Pública, não estando previsto pela equipa de desenvolvimento do modelo neste momento criar um serviço de acesso público semelhante às soluções comerciais existentes no mercado”, confirmou João Magalhães, coordenador do projeto, ao Público.

O Governo continua a defender o impacto que o Amália pode ter em áreas como a Educação e a Saúde, e o desenvolvimento do modelo é uma das bandeiras do executivo na área da transformação digital, mas ainda não há provas dadas. E a dimensão anunciada, de 9 mil milhões de tokens, está muito abaixo de outros LLM como os desenvolvidos pela equipa do NLX.

Em defesa da soberania na IA e uma autonomia linguística, cultural e geopolítica

O Evaristo.ai é apresentado pela equipa da Universidade de Ciências como o único chatbot para a língua portuguesa baseado em IA aberta, e António Branco sublinha a sua importância para a soberania na Inteligência Artificial, reduzindo a dependência tecnológica das Big Tech e mitigando vulnerabilidades e interferências externas.

O caminho para a IA soberana é o de se proporcionar para que o maior número possível de organizações, públicas e privadas, grande e pequenas, encontrem condições para oferecerem os seus próprios serviços de IA, aos seu colaboradores internos ou aos seu clientes externos, com base em sistemas onprem, que correm nas suas máquinas e nas suas instalações”, explica. Detalha que “isso é possibilitado pela existência de LLMs que são especializados para a língua portuguesa e que são triplamente abertos, em termos de distribuição (não é necessário pagamento, ou sequer registo para descarregar), de licença (não há domínios restritos) e de pesos do modelo (podem ser alterados e ser a base de mais aplicações e serviços de IA generativa)”.

A família de modelos desenvolvida pela equipa enquadra-se nesta visão de abertura e torna possível e viável esta soberania.

Em breve não haverá utilização das línguas naturais sem intermediação tecnológica, através da IA. No estado atual das coisas, essa intermediação encontra-se concentrada num muito pequeno oligopólio de bigtechs, concentradas num único país. Podendo um dia não haver tal intermediação, não haverá comunicação. Não havendo comunicação, a vida das pessoas, das organizações e dos países estará severamente comprometida”, avisa António Branco.

E mesmo que isso nunca aconteça, o investigador lembra que entregar a um oligopólio todas as nossas conversas, textos, mensagens, atas de reuniões, transcrições de  chamadas telefónicas, etc, tudo o que é inevitavelmente feito com e através da linguagem, representa uma concentração de poder indesejável para a soberania pessoal e coletiva, em termos linguísticos, culturais e geopolíticos”.

Esta é uma análise que o professor tem defendido, sendo aplicada como um guia estratégico das atividades do grupo de investigação.

Interface simplificada e capacidade de “ouvir” e “falar” em português

O Evaristo.ia conta também com uma interface simplificada e a possibilidade de entender as perguntas colocadas por voz, respondendo também em formato de áudio, e não apenas em texto, um desenvolvimento para uma mais facilidade na utilização.

Não é necessário registo mas apenas provar que é humano, com um teste de captcha, antes de colocar a primeira pergunta. Pode ser por voz ou por escrito, com a validação prévia da transcrição para evitar erros de interpretação – evitando desperdício de energia. As respostas podem ser apresentadas em texto ou aúdio, bastando clicar no ícone do altifalante, à semelhança do que acontece noutros chatbots.

No site pode experimentar vários heterónimos do Evaristo.ai, como o Llama 3.3, o Qwen 3, o Mistral Small e o Sabiá, ou o DeepSeek Coder, também abertos.

A pesquisa Web é uma das extensões integradas no site, que pode ativar ou desativar, sendo ainda possível criar imagens, usar uma calculadora para cálculo matemático ou extrair o conteúdo de uma página através de um URL. A equipa está ainda a desenvolver outras extensões, prometidas para breve.

Evaristo.ai - ecrãs da plataforma do Chatbot
Evaristo.ai - ecrãs da plataforma do Chatbot

O Evaristo.ai está acessível através deste link, assim como o “primo” especialista em serviços públicos.

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