O Dune estreou na semana passada e já bateu recordes de bilheteira. Esta é uma nova versão da obra de ficção científica de Frank Herbert, realizado por Denis Villeneuve, e tem um "toque português" que é comum com filmes como o Star Wars: The Rise of Skywalker, Game of Thrones, Batman vs. Superman ou Aquaman.

Estes são apenas alguns exemplos dos mais de 60 filmes e séries que utilizaram a tecnologia da Sound Particles, uma startup de Leiria que criou um software de áudio 3D, que aplica a computação gráfica ao som.

O SAPO TEK já tinha falado com o seu fundador, Nuno Fonseca, em 2016, que fez um balanço positivo dos seus primeiros seis meses de vida, tendo gerado 40 mil euros em vendas. E desde o início foi utilizado por diversas produções de Hollywood, tendo referido que o futuro do software seria a integração da tecnologia na informação CGI em filmes com efeitos especiais 3D ou de animação por computador.

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E essa evolução aconteceu nos últimos anos, pois atualmente o Sound Particles já permite ao utilizador importar animações 3D (especialmente para quem trabalha com filmes de animação ou cenas com efeitos visuais), e usar essa informação 3D para controlar o som, obtendo um sincronismo perfeito entre a imagem e o som. A explicação foi dada por Nuno Fonseca numa nova entrevista ao SAPO TEK, onde reforçou que nos seus cinco anos de existência, já conta com 2.500 clientes em todo o mundo, num crescimento com média anual de 70%.

A ideia da Sound Particles surgiu muito tempo antes da fundação da empresa, quase 10 anos antes quando Nuno Fonseca se apercebeu que os efeitos visuais mias interessantes que via no cinema, tais como fogo, fumo ou tempestades de areia, utilizavam sistemas de partículas, uma técnica de computação gráfica que constrói estes efeitos através da criação de milhares ou até milhões de pontos. “Foi aí que considerei que seria interessante desenvolver uma lógica parecida para o som, ou seja, ter a possibilidade de gerar uma quantidade de efeitos sonoros fantásticos, através da junção de milhares de pequenos sons”.

E isso foi apenas uma ideia, pois só em 2021, depois de acabar o seu doutoramento em Computer Audio, notou que ninguém estava a utilizar os sistemas de partículas para o áudio, decidindo assim criar o seu próprio simulador, que utiliza os mesmos conceitos de computação gráfica e dos efeitos visuais, aplicados ao som. “Na altura, era professor no departamento de Engenharia Informática, no Instituto Politécnico de Leiria, e acumulava também a função de professor convidado na Escola Superior de Música de Lisboa. Eu sabia que seria um projeto interessante para grandes estúdios de Hollywood, mas é daquelas ideias que - qual é a probabilidade de alguém de Leiria criar um software para ser utilizado em grandes estúdios de Hollywood, em grandes produções?”

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Aproveitando uma viagem a Los Angeles em 2014, no âmbito de uma conferência científica, decidiu fazer contactos com estúdios de Hollywood para apresentar o seu projeto. Curiosamente, a primeira resposta positiva viria da SkyWalker Sound, o estúdio de som de George Lucas para a produção de Star Wars. A empresa convidou o investigador para ir ao SkyWalker Ranch para apresentar o seu primeiro protótipo.

Nos seis meses seguintes apresentou a primeira versão do Sound Particles aos grandes estúdios de cinema, incluindo a Universal, Warner Brothers, Fox, Sony, Paramount, entre outros. E mais tarde na Disney, na Pixar, na Apple, Universidade de Stanford, Google, etc. E as respostas dos executivos pareciam ser unânimes: “quando é que podemos brincar com isto?” Passaram-se mais dois meses para a conclusão do protótipo de uma versão beta. Mas o primeiro filme que estreou usando o software da Sound Particles foi o remake do filme Poltergeist da Fox em 2015, aplicado aos sons dos fantasmas e do imaginário, explicou Nuno Fonseca.

sound particles
Nuno Fonseca é o fundador da startup Sound Particles, de Leiria. créditos: Ciano Vetromille

A computação gráfica é bastante conhecida, seja nos efeitos especiais nos filmes como nos videojogos. Esse foi o ponto de partida da Sound Particles, que pegou nos mesmos conceitos e adaptou-os ao som. “Em vez de criarmos um mundo virtual com modelos 3D captados por uma câmara virtual, fazemos o mesmo com som: criando um espaço virtual com sons, que são captados por câmaras virtuais”.

Como exemplo, salienta a possibilidade de alguém precisar de criar o som uma batalha. Por norma, os técnicos utilizam um programa de edição de áudio e começam a acrescentar sons, com um tiro aqui, outro acolá, uma explosão, etc. e no final do dia tem 60 sons a tocar ao mesmo tempo conforme foram programados. “Com o Sound Particles, conseguimos dizer ao computador que queremos criar 10.000 partículas (fontes sonoras), espalhadas por 1 km2 (como se os soldados ocupassem um terreno de 1km de largura), importamos 200 sons de guerra, acrescentamos movimentos aleatórios, e em menos de 15 minutos, temos o som épico de uma batalha com 10.000 sons, em vez de demorar um dia e ter 60 sons”, detalha o investigador.

Nuno Fonseca destaca assim três vantagens do seu software face a outras soluções de áudio 3D. A primeira é a produtividade, pois permite aos profissionais de som terem a capacidade de criar situações mais complexas e de uma forma mais rápida. O segundo é a escala, considerando que são permitidas fazer coisas impossíveis de criar através dos métodos convencionais. A empresa firma ter renders com mais de um milhão de sons em simultâneo. Por fim e talvez o mais importante, a qualidade do som, que é mais natural e orgânico.

A tecnologia da startup leiriense está a ser bem-recebida na indústria, salientando o feedback muito positivo que tem recebido dos profissionais do som. “A oportunidade de ser parte destas produções vem da comunicação com estes profissionais e do desenvolvimento de um produto muito alinhado com as suas necessidades”.

A Sound Particles não se limita ao cinema, como pode ser aplicada ao nível dos videojogos e até na música. Fortnite, o grande sucesso da Epic Games, é um dos exemplos de jogos que utilizam a tecnologia, mas outros grandes estúdios também já estão a usar, incluindo a Blizzard, Ubisoft, a Sony PlayStation e outros. Na indústria da música, a tecnologia está a ser utilizada por compositores como Hans Zimmer, Peter Gabriel e outros.

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