Um rumor que parecia impensável há apenas alguns anos ganha agora força: a Mercedes-Benz estará em negociações avançadas com a BMW para utilizar motores da sua rival em vários modelos de grande volume. A informação foi avançada pela britânica Autocar e pela revista alemã Manager, ambas citando fontes próximas das negociações.

O acordo em cima da mesa prevê que a BMW forneça à Mercedes-Benz o motor B48, um quatro cilindros em linha 2.0 turbo, que está já a ser utilizado em vários modelos da BMW e Mini. Este bloco, produzido em Steyr, na Áustria, destaca-se pela versatilidade, sendo possível instalar numa posição transversal e longitudinal, tendo sido criado já a pensar na sua aplicação em modelos eletrificados, como modelos híbridos plug-in e em sistemas de extensor de autonomia.

BMW B48
BMW B48 BMW B48 créditos: BMW

A culpa é da eletrificação

Quando em 2021 a Mercedes-Benz anunciou que se iria tornar totalmente elétrica até ao final da década, indo ao encontro das restrições impostas pela União Europeia, ninguém esperava que a procura por modelos elétricos fosse tão baixa, o que obrigou o fabricante de Estugarda a rever a sua estratégia em 2024.

Desta forma, a Mercedes-Benz teve que dar continuidade à comercialização de veículos com motor a combustão, mas existe agora um novo problema, a controversa norma Euro 7. Para modelos de entrada de gama, a marca de Estugarda já tinha apresentado o novo motor M252, um quatro cilindros de 1,5 litros desenvolvido em parceria com a Horse (uma joint-venture entre a Geely e a Renault), que é produzido na China, mas que só pode ser aplicado em modelos mild-hybrid e com montagem transversal.

Mercedes M252
Mercedes M252 Mercedes M252 créditos: Mercedes-Benz

Ou seja, este novo motor não é compatível com as soluções híbridas plug-in da marca, um segmento essencial tendo em conta o seu crescimento, bem como a necessidade de cumprimento das metas de emissões impostas pela UE. Através da implementação do B48 da BMW, a situação seria imediatamente resolvida, visto ser um motor já compatível com a norma Euro 7, e por ser suficientemente flexível para equipar uma gama diversificada de modelos.

Através do B48 da BMW, a Mercedes-Benz poderia aplicar o motor montado numa posição transversal que permitiria a sua utilização em modelos como o CLA e o GLA, assim como longitudinalmente, o que por sua vez possibilitaria a instalação em modelos como o Classe C ou Classe E, sem esquecer os SUV GLB e GLC sem grandes restrições técnicas.

Prática comum, menos entre rivais

Apesar de controversa, esta decisão não é caso único. Recordamos que motores 1.5 dCi e 1.6 dCi da Renault chegaram a equipar as gerações anteriores de modelos como o Classe A, CLA, B e C, tendo sido autênticos best-sellers da marca. A diferença é que agora o parceiro não é um fabricante periférico, mas sim o seu maior rival.

Para a BMW, esta solução representa um reconhecimento da qualidade dos seus motores, e um excelente negócio. Ao fornecer motores a um concorrente direto, especialmente para modelos de grande volume, consegue assim aumentar a sua escala de produção e diluir os custos de produção e desenvolvimento mais rapidamente.

Recordamos que a marca bávara já tem tradição no fornecimento de motores a terceiros, em marcas como a Morgan, Ineos e Land Rover, sem esquecer modelos históricos como o mítico McLaren F1, mas nunca tinha fornecido um rival tão próximo. A Autocar adianta ainda que este acordo poderá abrir caminho a outras formas de cooperação, como a partilha de fábricas fora da Europa, nomeadamente nos EUA, solução essa que seria perfeita para contornar as tarifas de importação impostas pela administração Trump.

Se confirmado, este entendimento poderá gerar alguma confusão junto dos mais puristas defensores de ambas as marcas, mas esta é, efetivamente, a melhor solução para sobreviver num mercado onde a transição para a mobilidade elétrica e as pressões regulatórias estão a reconfigurar as regras do jogo.

No final, a grande questão será perceber até que ponto o consumidor notará a diferença. A verdade é que, na prática, a equivalência entre Mercedes e BMW é atualmente bastante significativa: basta olhar para as especificações de modelos como o Mercedes-Benz E 220d e o BMW 520d, ambos com 197 cv de potência e prestações praticamente idênticas, tanto em desempenho como em termos de consumos e emissões.